Nova espécie rara de molusco vivendo a 5.500 metros de profundidade é descoberta

Molusco misterioso é encontrado a mais de 5.000 metros de profundidade (Imagem: Senckenberg Ocean Species Alliance)
Molusco misterioso é encontrado a mais de 5.000 metros de profundidade (Imagem: Senckenberg Ocean Species Alliance)

Uma descoberta recente mostrou que a ciência pode ser mais participativa do que nunca. Uma nova espécie de quíton de águas profundas, um tipo de molusco marinho pouco conhecido, recebeu seu nome científico com ajuda direta da internet. O animal foi oficialmente batizado de Ferreiraella populi, em um processo que uniu pesquisadores e milhares de pessoas nas redes sociais.

A descrição da espécie foi publicada na revista científica Biodiversity Data Journal, após um concurso público organizado pela Senckenberg Ocean Species Alliance (SOSA) em parceria com a editora Pensoft Publishers. Mais de 8 mil sugestões de nomes foram enviadas por participantes do mundo todo, e o termo “populi”, que significa “do povo” em latim, acabou sendo escolhido por representar o espírito coletivo da iniciativa.

Logo após a divulgação do animal em um vídeo de ciência, a comunidade online foi convidada a participar ativamente da etapa de nomenclatura. Em poucos dias, o que normalmente é um processo restrito a especialistas se transformou em uma experiência de ciência cidadã. Entre os principais destaques do processo:

  • Mais de 8.000 nomes sugeridos;
  • 11 pessoas diferentes propuseram o nome vencedor;
  • O epíteto “populi” homenageia a participação pública;
  • A espécie foi descrita apenas dois anos após sua descoberta.

Um morador exclusivo das profundezas

A Ferreiraella populi foi encontrada a cerca de 5.500 metros de profundidade, na Fossa de Izu-Ogasawara, no oceano Pacífico. Ela pertence a um grupo raro de quítons que vivem exclusivamente sobre madeira submersa, como troncos que afundam até o fundo do mar.

Os quítons são moluscos com aparência curiosa, muitas vezes descritos como um cruzamento entre caracol e besouro. Diferentemente dos moluscos comuns, eles possuem oito placas rígidas na carapaça, o que permite grande flexibilidade e aderência a superfícies irregulares.

Essa espécie também chama atenção por apresentar uma rádula revestida de ferro, uma estrutura usada para raspar alimento, além de abrigar pequenos vermes simbióticos que vivem próximos à sua cauda.

Como nasce um nome científico?

Toda nova espécie precisa receber um nome formal seguindo regras internacionais de nomenclatura biológica. O sistema, criado por Carl Linnaeus, utiliza dois termos: o gênero e o epíteto específico, ambos em latim. No caso da Ferreiraella populi:

  • Ferreiraella indica o gênero;
  • populi simboliza a origem popular do nome.

Tradicionalmente, esses nomes fazem referência a características físicas, localização geográfica ou homenagens. O diferencial desse caso é que a escolha refletiu diretamente a interação entre ciência e sociedade.

Além do aspecto curioso, a descoberta reforça um ponto essencial: a biodiversidade marinha ainda é amplamente desconhecida. Grande parte das espécies do oceano profundo nunca foi descrita e pode desaparecer antes mesmo de ser identificada.

A rápida descrição da Ferreiraella populi é especialmente relevante diante de ameaças como a mineração em águas profundas e as mudanças ambientais globais. Envolver o público nesse processo não apenas acelera a ciência, como também aumenta a consciência sobre a conservação dos oceanos.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua na educação científica e como divulgador, com o compromisso de traduzir descobertas complexas, das microbactérias aos grandes ecossistemas, em conhecimento acessível para todos.Ver perfil no LinkedIn