A busca por tratamentos capazes de ir além do controle dos sintomas do Parkinson acaba de dar um passo relevante. Pesquisadores da Keck Medicine da University of Southern California (USC) iniciaram testes clínicos com implantes de células cerebrais produtoras de dopamina, uma estratégia que pretende restaurar funções motoras comprometidas pela doença.
O estudo envolve centros médicos especializados, biotecnologia avançada e supervisão regulatória rigorosa, abrindo caminho para uma possível mudança no paradigma terapêutico.
Parkinson e o colapso progressivo do controle motor
A doença de Parkinson é um distúrbio neurológico crônico associado à perda gradual de neurônios dopaminérgicos. A dopamina é essencial para a comunicação entre regiões cerebrais que coordenam movimentos voluntários, postura e equilíbrio. Quando seus níveis caem, surgem sintomas como tremores, rigidez muscular e lentidão motora.
Nos Estados Unidos, mais de um milhão de pessoas convivem com a doença, e milhares de novos casos são diagnosticados anualmente. Apesar dos avanços farmacológicos, nenhuma terapia disponível consegue interromper ou retardar de forma comprovada a degeneração neuronal.
A proposta da Keck Medicine da USC
O novo ensaio clínico conduzido pela Keck Medicine da USC, braço acadêmico e hospitalar da University of Southern California, investiga se a substituição de neurônios perdidos pode devolver ao cérebro a capacidade de produzir dopamina. Trata-se de um estudo de fase inicial, focado principalmente em segurança, viabilidade e sinais preliminares de benefício clínico.
A USC é um dos três centros médicos norte-americanos participantes do estudo multicêntrico, que envolve pacientes com Parkinson moderado a moderadamente avançado.
O papel das células-tronco pluripotentes induzidas
A terapia utiliza células-tronco pluripotentes induzidas (iPSCs), desenvolvidas a partir de células adultas reprogramadas em laboratório. Diferentemente das células-tronco embrionárias, essa tecnologia evita controvérsias éticas e permite maior controle sobre a diferenciação celular.
No laboratório, as iPSCs são direcionadas para se transformar em neurônios produtores de dopamina, com o objetivo de substituir diretamente as células degeneradas pela doença.
Como ocorre o implante cerebral
O procedimento cirúrgico é realizado com apoio de ressonância magnética, permitindo a implantação precisa das células nos gânglios da base, região central para o controle motor. Após a cirurgia, os participantes passam por monitoramento intensivo por mais de um ano, com acompanhamento prolongado que pode chegar a cinco anos.
Durante esse período, são avaliados:
- Desempenho motor
- Possíveis efeitos adversos
- Integração das células ao tecido cerebral
- Estabilidade da produção de dopamina
Indústria, regulação e supervisão científica
A terapia celular testada, denominada RNDP-001, é desenvolvida pela Kenai Therapeutics, empresa de biotecnologia especializada em doenças neurológicas. O ensaio clínico, chamado REPLACE™, recebeu da Food and Drug Administration (FDA) a designação de via rápida, reconhecimento concedido a terapias com potencial clínico relevante.
Embora os resultados ainda sejam preliminares, a participação de instituições como a University of Southern California, a Keck Medicine, a Kenai Therapeutics e a supervisão da FDA conferem robustez científica ao projeto. Se a abordagem se mostrar segura e eficaz, poderá representar um avanço significativo rumo a tratamentos capazes de modificar o curso do Parkinson, e não apenas aliviar seus sintomas.

