Crocodilos cruzaram oceanos e dominaram ilhas Seychelles antes de serem extintos por humanos

DNA revela a migração épica dos crocodilos pelo Índico (Imagem: Getty Images via Canva)
DNA revela a migração épica dos crocodilos pelo Índico (Imagem: Getty Images via Canva)

Durante séculos, acreditou-se que os crocodilos sempre estiveram restritos a ambientes costeiros ou continentais próximos. No entanto, evidências genéticas recentes mostram que esses répteis foram protagonistas de uma das maiores migrações naturais já registradas entre grandes predadores. Antes da chegada dos humanos, crocodilos de água salgada conseguiram atravessar o Oceano Índico e estabelecer populações nas Ilhas Seychelles, um arquipélago remoto a milhares de quilômetros do continente.

A descoberta, publicada na revista científica Royal Society Open Science, indica que esses animais percorreram pelo menos 3.000 quilômetros em mar aberto, um feito notável para uma espécie considerada, até pouco tempo, limitada a áreas costeiras.

Logo após a colonização humana das ilhas, no século XVIII, essa população foi completamente exterminada, restando apenas crânios e dentes preservados em museus, hoje fundamentais para reconstruir essa história evolutiva. Principais achados do estudo:

  • Os crocodilos das Seychelles pertenciam à espécie Crocodylus porosus;
  • Não eram crocodilos-do-nilo nem uma espécie exclusiva;
  • A distribuição original da espécie ultrapassava 12 mil quilômetros de extensão;
  • As populações mantinham conectividade genética ao longo do Indo-Pacífico.

A era dos crocodilos marinhos e o impacto da presença humana

Ao contrário do que o senso comum sugere, os crocodilos de água salgada são altamente adaptados ao ambiente oceânico. Eles possuem glândulas especializadas na língua, capazes de eliminar o excesso de sal, além de um metabolismo eficiente que permite longos períodos sem alimentação.

Além disso, esses répteis utilizam correntes marítimas como verdadeiras “rodovias naturais”, flutuando por dias ou semanas até alcançar novas áreas. Essa estratégia explica como conseguiram colonizar ilhas isoladas e manter populações conectadas mesmo a grandes distâncias.

Embora tenham sobrevivido a mudanças climáticas e geológicas ao longo de milhões de anos, os crocodilos das Seychelles não resistiram à presença humana. A caça sistemática e a ocupação do território levaram à extinção total da população local, eliminando um dos maiores predadores do ecossistema insular.

Esse padrão se repete em várias regiões do planeta, onde grandes animais são os primeiros a desaparecer após a chegada de humanos.

O que o DNA ainda pode revelar

O estudo utilizou DNA mitocondrial, herdado apenas da linhagem materna. Isso permite identificar relações evolutivas amplas, mas não captura variações genéticas mais sutis entre populações. Pesquisas futuras com DNA nuclear podem revelar se existiam subgrupos regionais ou adaptações locais ao longo do vasto território ocupado pela espécie.

Portanto, mais do que uma curiosidade histórica, essa descoberta reforça a ideia de que os crocodilos são um dos vertebrados mais móveis e resilientes do planeta, capazes de conquistar oceanos inteiros, mas ainda assim vulneráveis à ação humana.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua na educação científica e como divulgador, com o compromisso de traduzir descobertas complexas, das microbactérias aos grandes ecossistemas, em conhecimento acessível para todos.Ver perfil no LinkedIn