Pancreatite aguda aparece como efeito adverso em canetas emagrecedoras

Perda de peso rápida pode aumentar risco de pancreatite. (Foto: Getty Images via Canva)
Perda de peso rápida pode aumentar risco de pancreatite. (Foto: Getty Images via Canva)

O crescimento acelerado do uso de medicamentos injetáveis para controle do peso e do diabetes trouxe benefícios claros, mas também reacendeu discussões importantes sobre segurança. Entre elas, a possível associação entre agonistas do receptor GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, e episódios raros de pancreatite aguda voltou a ganhar destaque após novas análises científicas globais.

Embora esses fármacos sejam amplamente considerados seguros quando usados corretamente, a literatura científica mais recente reforça a necessidade de monitoramento clínico cuidadoso, especialmente em grupos específicos de pacientes.

Evidência científica 

Uma análise apresentada no ISPOR Real-World Evidence Summit 2025 reuniu dados de farmacovigilância internacional e estudos observacionais publicados até março de 2025. O objetivo foi avaliar o risco potencial de pancreatite aguda associada ao uso de agonistas de GLP-1 em cenários do mundo real.

Os resultados indicam que não há aumento significativo do risco populacional geral, mas confirmam que a pancreatite aguda permanece classificada como um evento adverso raro, já descrito nas bulas desses medicamentos. Os casos identificados ocorreram, em grande parte, em pacientes com fatores predisponentes, como histórico de doença biliar, obesidade grave ou perda de peso muito rápida.

Por que a pancreatite pode ocorrer em situações específicas?

A pancreatite aguda é uma inflamação súbita do pâncreas causada pela ativação precoce de enzimas digestivas dentro do próprio órgão. Um dos mecanismos discutidos na literatura envolve o emagrecimento acelerado, que pode alterar a composição da bile e favorecer a formação de cálculos biliares.

Esses cálculos podem obstruir o ducto pancreático, desencadeando inflamação. Esse processo não está ligado diretamente à ação tóxica do medicamento sobre o pâncreas, mas sim a efeitos metabólicos indiretos, especialmente quando não há acompanhamento médico adequado.

Como agem os medicamentos da classe GLP-1

As chamadas canetas emagrecedoras atuam simulando hormônios intestinais envolvidos na regulação do apetite e da glicose. Seus principais efeitos incluem:

  • Aumento da saciedade, reduzindo a ingestão calórica
  • Retardo do esvaziamento gástrico, prolongando a sensação de estômago cheio
  • Melhora do controle glicêmico, com estímulo à liberação de insulina

Esses mecanismos explicam tanto os benefícios clínicos quanto alguns efeitos gastrointestinais observados no início do tratamento.

A importância do acompanhamento médico contínuo

A evidência científica reforça que o risco de complicações aumenta quando esses medicamentos são utilizados sem indicação precisa, com ajustes de dose inadequados ou sem avaliação prévia de condições como doenças da vesícula biliar.

Além disso, a interrupção abrupta do tratamento, sem estratégia nutricional e comportamental, pode levar a efeito rebote e perda de massa muscular, comprometendo a saúde metabólica.

O que a ciência aponta como caminho mais seguro

O consenso atual é claro: os agonistas de GLP-1 continuam sendo ferramentas eficazes e seguras quando usados corretamente. No entanto, o uso deve estar inserido em um plano terapêutico estruturado, com avaliação individual de riscos, orientação nutricional e vigilância de sintomas como dor abdominal persistente, náuseas intensas ou vômitos.

A ciência não indica pânico, mas sim uso responsável e baseado em evidências, especialmente diante da popularização dessas terapias.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.