A ansiedade provocada por situações sociais adversas é um dos efeitos mais comuns do estresse crônico. Embora tratamentos tradicionais atuem após o surgimento dos sintomas, novas evidências científicas sugerem uma abordagem diferente e promissora: prevenir a ansiedade antes que ela se instale.
Um estudo recente mostrou que uma forma sintética da ocitocina pode atuar justamente nesse ponto, reduzindo alterações comportamentais associadas ao estresse social em modelos animais.
O papel da ocitocina no equilíbrio emocional
A ocitocina é um hormônio amplamente associado ao vínculo social, à regulação emocional e à sensação de segurança. Em contraste com o sistema do estresse, mediado pelo cortisol, a ocitocina está ligada a estados de calma e adaptação emocional.
Pesquisas recentes indicam que esse sistema hormonal não atua apenas no bem-estar imediato, mas também na modulação de circuitos cerebrais relacionados à ansiedade, especialmente em contextos sociais prolongadamente estressantes.
Como o estudo investigou a ansiedade social
O estudo foi publicado na revista Progress in Neurobiology com o título Effects of oxytocin receptor ligands on anxiety-like behavior, social avoidance and oxytocin receptor expression induced by chronic social defeat stress in rats, tendo como autor principal Lucas Canto-de-Souza, em dezembro de 2025 (DOI: 10.1016/j.pneurobio.2025.102853).
Os pesquisadores utilizaram um modelo experimental conhecido como estresse crônico por derrota social, amplamente empregado para estudar ansiedade. Nesse modelo, os animais são expostos repetidamente a interações sociais aversivas, o que costuma desencadear comportamentos semelhantes à ansiedade.
Antes dessas situações, parte dos animais recebeu carbetocina, um análogo sintético da ocitocina.
Efeito preventivo sem alterar o comportamento normal
Os resultados mostraram que os animais tratados previamente com carbetocina não desenvolveram comportamentos ansiosos, mantendo padrões semelhantes aos de animais que não passaram por estresse.
Um ponto importante é que a substância não agiu como um ansiolítico clássico, ou seja, não deixou os animais mais ousados ou destemidos. Seu efeito foi preventivo, protegendo o cérebro contra as consequências do estresse social, em vez de mascarar sintomas.
O cérebro como alvo da proteção
A análise cerebral revelou mudanças importantes no córtex pré-frontal medial, região essencial para o controle emocional e a resposta ao estresse. A carbetocina aumentou a expressão de receptores de ocitocina nessa área, fortalecendo os circuitos associados à regulação da ansiedade.
Quando os receptores de ocitocina foram bloqueados experimentalmente, o efeito protetor desapareceu, confirmando que o benefício depende diretamente da ativação desse sistema neurobiológico.
Perspectivas para o futuro
Embora os resultados sejam iniciais e limitados a modelos animais, eles reforçam a ideia de que atuar preventivamente nos circuitos do estresse pode ser uma estratégia promissora para reduzir transtornos de ansiedade relacionados a contextos sociais.
Essas descobertas ampliam a compreensão sobre como o cérebro responde ao estresse e abrem caminhos para o desenvolvimento futuro de intervenções mais precisas e seguras.

