A couve é presença frequente em dietas consideradas saudáveis. Ela concentra vitaminas, antioxidantes e carotenoides, nutrientes associados à proteção da visão, ao bom funcionamento do sistema imunológico e à prevenção de doenças crônicas. Ainda assim, pesquisas recentes indicam que o modo como a couve é consumida pode determinar se esses nutrientes serão realmente absorvidos pelo organismo.
Um estudo publicado na revista Food Nutrition, em dezembro de 2025, investigou como diferentes formas de preparo influenciam a liberação e absorção dos carotenoides da couve. A pesquisa, intitulada Culinary strategies for improving carotenoid bioaccessibility in kale: The role of thermal processing and excipient emulsions, teve como autor principal Hangxin Zhu e analisou a interação entre o vegetal, o cozimento e a presença de gordura durante a digestão (DOI: 10.1016/j.fnutr.2025.100049).
Nutriente presente não é nutriente absorvido
Um dos pontos centrais do estudo é a diferença entre o que está no alimento e o que o corpo consegue aproveitar. Os carotenoides da couve, como luteína, alfa-caroteno e beta-caroteno, pertencem a um grupo de compostos que dependem de gordura para serem absorvidos.
Quando a couve é ingerida sozinha, seja crua ou apenas cozida em água, esses nutrientes têm dificuldade para atravessar o sistema digestivo. Como resultado, parte significativa dos compostos benéficos acaba sendo eliminada sem cumprir sua função no organismo.
Por que a gordura muda tudo?
Durante a digestão, a gordura atua como uma espécie de “ponte”, ajudando os carotenoides a passarem do alimento para a corrente sanguínea. Sem essa ajuda, a absorção é limitada.
O estudo avaliou a couve em diferentes cenários, incluindo versões sem gordura e preparações combinadas com molhos. Os dados mostraram que o calor, por si só, não melhora a absorção. O fator decisivo foi a presença de gordura, independentemente de a couve estar crua ou cozida.
Quais gorduras funcionam melhor?
Na prática, várias fontes de gordura podem cumprir esse papel, mas algumas são mais indicadas no dia a dia:
- Azeite de oliva, que além de ajudar na absorção, traz benefícios cardiovasculares
- Óleos vegetais comuns, como soja, milho ou canola, que funcionam, mas devem ser usados com moderação
- Alimentos naturalmente gordurosos, como abacate, ovos, castanhas, sementes e peixes gordurosos
O estudo também testou molhos formulados com nanoemulsões, uma tecnologia que fragmenta a gordura em partículas muito pequenas, aumentando ainda mais a eficiência da absorção. Embora isso não faça parte da rotina da maioria das pessoas, os resultados reforçam a importância da gordura no processo digestivo.
O que isso muda na prática
Os resultados deixam uma mensagem clara: não basta incluir couve no prato, é preciso combiná-la corretamente. Um simples fio de azeite, um refogado leve ou a combinação com alimentos que contenham gordura já é suficiente para melhorar o aproveitamento dos nutrientes.
A couve continua sendo um alimento saudável em qualquer forma de consumo. No entanto, a ciência mostra que pequenos ajustes no preparo podem transformar a quantidade de benefícios que o corpo realmente recebe.

