Cientistas fazem células do próprio tumor se voltarem contra o câncer

Macrófagos do tumor são reprogramados para atacar o câncer. (Foto: Fala Ciência via Canva)
Macrófagos do tumor são reprogramados para atacar o câncer. (Foto: Fala Ciência via Canva)

Durante décadas, um dos maiores desafios da oncologia foi lidar com o próprio ambiente tumoral, conhecido por silenciar o sistema imunológico e proteger o câncer de ataques internos. 

Porém, uma abordagem inovadora propõe inverter essa lógica ao transformar células imunológicas presentes no tumor em agentes ativos de destruição do câncer, diretamente dentro do organismo.

O inimigo escondido dentro dos tumores

Tumores sólidos como os de pulmão, fígado e estômago não são formados apenas por células cancerígenas. Eles abrigam grandes quantidades de macrófagos, células do sistema imunológico naturalmente capazes de reconhecer e eliminar ameaças. No entanto, o microambiente tumoral bloqueia sua função, tornando essas células inativas ou até favoráveis ao crescimento do câncer.

Esse mecanismo explica por que muitas imunoterapias tradicionais falham em tumores sólidos, apesar de funcionarem bem em outros tipos de câncer.

Reprogramação imune feita diretamente no corpo

Pesquisadores do Instituto Avançado de Ciência e Tecnologia da Coreia desenvolveram uma estratégia que contorna esse bloqueio imunológico sem a necessidade de remover células do paciente. A abordagem utiliza nanopartículas lipídicas capazes de serem absorvidas seletivamente pelos macrófagos presentes no tumor.

Essas partículas transportam dois elementos essenciais:

  • mRNA, que instrui as células a produzir receptores de reconhecimento do câncer
  • Um imunoestimulante, que ativa vias de defesa celular

Como resultado, os macrófagos passam a expressar receptores do tipo CAR e se transformam em macrófagos CAR, capazes de identificar, englobar e destruir células tumorais, além de ativar outras células imunes ao redor.

Superando limites das terapias celulares atuais

As terapias CAR existentes costumam exigir coleta de células do sangue, modificação genética em laboratório e posterior reinfusão no paciente. Esse processo é complexo, caro e difícil de escalar. A nova abordagem elimina essas etapas ao converter células imunológicas diretamente no interior do tumor, reduzindo barreiras técnicas e ampliando o potencial clínico.

Além disso, os macrófagos apresentam vantagens naturais:

  • Penetram com facilidade em tumores sólidos
  • Englobam diretamente células cancerígenas
  • Amplificam a resposta imune local

Resultados promissores em modelos animais

Em estudos com modelos animais de melanoma, a aplicação intratumoral da terapia resultou em redução significativa do crescimento tumoral. Mais importante ainda, os dados indicaram ativação de respostas imunes além do local tratado, sugerindo um possível efeito sistêmico contra o câncer.

Esses achados indicam que a estratégia pode não apenas controlar tumores locais, mas também contribuir para uma proteção imunológica mais ampla.

Um novo conceito em imunoterapia

Os resultados foram descritos no estudo “Terapia in situ com receptor de antígeno quimérico e macrófagos via co-entrega de mRNA e imunoestimulante”, publicado na revista ACS Nano, tendo Jun-Hee Han como autor principal, em 2025 (DOI: 10.1021/acsnano.5c09138).

A pesquisa inaugura um novo paradigma ao mostrar que o próprio tumor pode ser usado como ponto de partida para ativar uma resposta imune eficaz, abrindo caminho para terapias mais acessíveis, rápidas e adaptáveis no combate ao câncer.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.