Por muito tempo, a doença de Alzheimer foi considerada um problema restrito ao cérebro. No entanto, evidências científicas cada vez mais consistentes indicam que a origem do processo neurodegenerativo pode começar muito antes e em um local inesperado: o intestino.
Um estudo recente reforça essa conexão ao mostrar que a inflamação intestinal está associada ao acúmulo de placas amiloides e à piora da memória, mesmo em pessoas ainda sem diagnóstico da doença.
A pesquisa foi publicada na revista científica Scientific Reports, com o título Gut inflammation associated with age and Alzheimer’s disease pathology: a human cohort study, liderada por Margo B. Heston, em novembro de 2023 (DOI: 10.1038/s41598-023-45929-z). O trabalho analisou dados humanos e adiciona uma nova camada de compreensão sobre o papel do eixo intestino-cérebro no Alzheimer.
O intestino como peça-chave na saúde cerebral
Estudos anteriores em animais já haviam demonstrado que alterações no microbioma intestinal podem influenciar o desenvolvimento de alterações cerebrais típicas do Alzheimer. Agora, essa nova investigação em humanos fortalece a hipótese de que a inflamação intestinal crônica pode ser um dos mecanismos centrais do problema.
Os pesquisadores avaliaram 125 participantes provenientes de dois estudos de coorte focados na prevenção da doença. Foram analisados aspectos cognitivos, histórico familiar, fatores genéticos de risco e exames de imagem cerebral. Além disso, as amostras de fezes foram examinadas para medir os níveis de calprotectina fecal, um marcador amplamente utilizado para indicar inflamação no intestino.
Inflamação intestinal e placas amiloides caminham juntas

Os resultados mostraram que níveis mais altos de calprotectina estavam associados a maior presença de placas amiloides no cérebro, um dos principais sinais patológicos do Alzheimer. Essa associação foi observada mesmo após o ajuste para fatores como idade e risco genético.
Além disso, quanto maior a inflamação intestinal, piores foram os desempenhos em testes de memória, inclusive entre participantes que ainda não apresentavam diagnóstico clínico da doença. Isso sugere que o processo inflamatório pode estar ativo anos antes do surgimento dos sintomas clássicos.
Como a inflamação no intestino afeta o cérebro
A hipótese central do estudo é que alterações no microbioma levam a um aumento da permeabilidade intestinal, permitindo que moléculas inflamatórias e toxinas entrem na circulação. Esse processo pode desencadear uma inflamação sistêmica de baixo grau, porém persistente.
Com o tempo, essa inflamação pode comprometer a barreira hematoencefálica, facilitando a entrada de substâncias inflamatórias no cérebro. O resultado é um ambiente favorável à neuroinflamação, ao acúmulo de proteínas tóxicas e, progressivamente, à neurodegeneração.
Evidências crescentes, mas ainda sem causalidade direta
Embora os achados sejam robustos, o estudo ressalta que não é possível afirmar causalidade direta apenas com dados observacionais em humanos. Por isso, experimentos adicionais em modelos animais já estão em andamento para investigar se mudanças na dieta e no microbioma podem, de fato, desencadear processos semelhantes ao Alzheimer.
Ainda assim, os dados reforçam que o intestino não é um espectador passivo, mas um possível protagonista silencioso na progressão da doença.
Um novo caminho para prevenção e diagnóstico
Compreender a ligação entre inflamação intestinal e Alzheimer pode abrir portas para estratégias inovadoras, incluindo:
- Identificação precoce de risco por meio de biomarcadores intestinais
- Intervenções dietéticas e metabólicas personalizadas
- Novos alvos terapêuticos focados no eixo intestino-cérebro
Embora ainda não exista cura para o Alzheimer, estudos como este aproximam a ciência de abordagens mais preventivas, integradas e eficazes.

