Quando se fala em riscos da obesidade, o foco quase sempre recai sobre o peso corporal total ou o índice de massa corporal. No entanto, novas evidências científicas indicam que o local onde a gordura se acumula pode ser ainda mais decisivo, especialmente para a saúde do cérebro.
Um estudo recente revela que o acúmulo de gordura no pâncreas está associado a envelhecimento cerebral acelerado, perda de massa cinzenta e maior risco de declínio cognitivo, mesmo quando outros órgãos, como o fígado, não apresentam excesso significativo de gordura.
O que torna a gordura pancreática um risco silencioso
A pesquisa analisou dados de quase 26 mil adultos utilizando exames avançados de ressonância magnética, permitindo mapear com precisão a gordura presente em diferentes órgãos internos. Os resultados mostraram que indivíduos com alta concentração de gordura no pâncreas apresentaram os sinais mais consistentes de comprometimento cerebral.
Esse padrão chamou atenção por dois motivos principais:
- Muitas dessas pessoas não apresentavam gordura hepática elevada
- O risco neurológico não era totalmente explicado pelo peso ou pelo IMC
Esses achados reforçam que a gordura pancreática representa um fenótipo metabólico distinto, com impacto direto na saúde cerebral.
Impactos observados no cérebro
De acordo com a análise publicada na revista Radiology, no estudo “Associação de padrões de distribuição de gordura corporal em ressonância magnética com estrutura cerebral, cognição e doenças neurológicas”, liderado por Miao Yu e publicado em janeiro de 2026 (DOI: 10.1148/radiol.252610), o acúmulo de gordura no pâncreas esteve associado a:
- Redução do volume de massa cinzenta
- Envelhecimento cerebral acelerado
- Pior desempenho cognitivo
- Maior risco de doenças neurológicas
Essas associações foram observadas tanto em homens quanto em mulheres, indicando um efeito consistente entre os sexos.
Por que o pâncreas pode afetar o cérebro?
Embora o estudo não tenha como objetivo identificar mecanismos causais definitivos, os dados sugerem que a gordura pancreática pode estar ligada a inflamação sistêmica, resistência metabólica e alterações vasculares, fatores conhecidos por afetar diretamente o cérebro.
Diferentemente da gordura subcutânea, a gordura acumulada em órgãos internos tende a ser metabolicamente ativa, liberando substâncias que podem impactar a circulação cerebral e a integridade neuronal ao longo do tempo.
Além do IMC: uma nova forma de avaliar risco
Um dos pontos mais relevantes do estudo é mostrar que medidas tradicionais, como IMC, podem falhar na identificação de riscos neurológicos reais. Pessoas com peso semelhante podem apresentar perfis de gordura completamente diferentes e, consequentemente, riscos distintos para o cérebro.
Isso abre espaço para uma abordagem mais personalizada da saúde, baseada não apenas na quantidade, mas na distribuição da gordura corporal.
O que essas descobertas indicam para o futuro
Os resultados reforçam a necessidade de:
- Avaliações metabólicas mais detalhadas
- Uso de exames de imagem em contextos de risco
- Intervenções precoces para proteção da saúde cerebral
A identificação da gordura pancreática como marcador de risco representa um avanço importante para estratégias de prevenção do declínio cognitivo e de doenças neurológicas associadas ao envelhecimento.

