Sintomas neurológicos da COVID longa variam conforme o país, diz estudo

Estudo compara sintomas neurológicos da COVID longa. (Foto: Getty Images via Canva)
Estudo compara sintomas neurológicos da COVID longa. (Foto: Getty Images via Canva)

Desde o início da pandemia, a COVID longa passou a ser reconhecida como uma condição capaz de provocar sintomas persistentes, especialmente no cérebro. Dificuldade de concentração, lapsos de memória e alterações emocionais tornaram-se queixas comuns. 

No entanto, um novo estudo internacional mostra que esses impactos não são relatados da mesma forma em todo o mundo.

Uma análise comparativa publicada em janeiro de 2026 na revista Frontiers in Human Neuroscience, intitulada “Uma análise comparativa transcontinental das manifestações neurológicas da COVID longa”, liderada por Millenia Jimenez, reuniu dados de mais de 3.100 pacientes avaliados em diferentes continentes (DOI: 10.3389/fnhum.2025.1760173). Os resultados indicam que fatores sociais e culturais desempenham um papel central nessa diferença.

Diferenças marcantes nos sintomas cognitivos

Entre pacientes que não precisam de hospitalização durante a infecção inicial, a névoa mental foi relatada por 86% dos participantes nos Estados Unidos. Em contraste, apenas 15% dos pacientes na Índia relataram o mesmo sintoma. Nigéria e Colômbia apresentaram números intermediários, mas ainda significativamente menores do que os observados nos EUA.

O mesmo padrão se repetiu em relação à ansiedade e depressão, frequentemente associadas à COVID longa. Países com maior renda e sistemas de saúde mais estruturados registraram maior volume de sintomas relatados, sugerindo que o impacto aparente não está necessariamente ligado à gravidade biológica da infecção.

Cultura e acesso à saúde moldam os relatos

A análise estatística revelou que os padrões de sintomas estavam mais associados ao nível de renda dos países do que à localização geográfica. Em regiões onde falar sobre saúde mental é socialmente mais aceito e onde há maior acesso a especialistas, os pacientes tendem a reconhecer e relatar sintomas cognitivos com mais facilidade.

Por outro lado, em países com estigma elevado, menor disponibilidade de profissionais de saúde mental e barreiras no acesso ao diagnóstico, muitos sintomas permanecem invisíveis nas estatísticas oficiais.

Sintomas neurológicos comuns em todas as regiões

Apesar das diferenças na frequência dos relatos, alguns sintomas apareceram de forma consistente entre os países analisados. Entre os mais comuns estão:

  • confusão mental
  • fadiga persistente
  • dores musculares
  • dor de cabeça
  • tontura
  • alterações sensoriais

Distúrbios do sono também foram observados, com destaque para a insônia, mais frequentemente relatada nos Estados Unidos do que em outras regiões.

Como o estudo foi conduzido

A pesquisa acompanhou adultos com sintomas neurológicos persistentes após infecção por COVID entre 2020 e 2025. Foram utilizadas avaliações padronizadas de cognição, neurologia e qualidade de vida, permitindo comparações diretas entre centros médicos da América do Norte, América do Sul, África e Ásia.

Esse desenho metodológico fortalece a interpretação de que as diferenças observadas refletem mais contexto social e acesso ao cuidado do que variações no próprio vírus.

Os resultados sugerem que milhões de pessoas podem estar convivendo com sintomas neurológicos da COVID longa sem diagnóstico ou tratamento adequado. O estudo reforça a importância de estratégias de triagem culturalmente sensíveis e de políticas públicas que ampliem o acesso à saúde mental e neurológica.

Ao mostrar que a COVID longa atinge o cérebro de forma diferente entre países, a pesquisa amplia o entendimento da condição e aponta caminhos para um cuidado mais equitativo e eficaz em escala global.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.