Cometa 3I/ATLAS foi observado pelo TESS, o caçador de exoplanetas: e agora?

Cometa 3I/ATLAS cruza o Sistema Solar sob os olhos da NASA (Imagem: Fala Ciência via Gemini)
Cometa 3I/ATLAS cruza o Sistema Solar sob os olhos da NASA (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

Um objeto que nasceu longe, em algum ponto desconhecido da galáxia, cruzou o Sistema Solar e foi acompanhado por um dos instrumentos mais sofisticados da astronomia moderna. O cometa interestelar 3I/ATLAS foi monitorado pelo TESS (Transiting Exoplanet Survey Satellite), satélite da NASA criado para buscar exoplanetas, mas que mostrou ter um papel crucial também na investigação de visitantes cósmicos.

Durante uma campanha especial de observação realizada ao longo de sete dias, o TESS registrou o deslocamento rápido do cometa enquanto ele se afastava do Sol. Apesar da enorme distância, foi possível identificar uma cauda difusa de poeira e gás, sinal de que o núcleo gelado estava ativo e liberando material para o espaço.

Além disso, os dados permitiram criar uma animação contínua da trajetória do objeto, revelando padrões de brilho e variações sutis que ajudam a compreender sua dinâmica física.

O que os cientistas buscam nessas observações

A partir das imagens e medições do TESS, os pesquisadores buscam compreender com mais precisão o comportamento físico do 3I/ATLAS, analisando desde a dinâmica de seu núcleo até a forma como o cometa interage com a radiação solar. Essas informações são fundamentais para entender como corpos interestelares se comportam ao atravessar sistemas planetários diferentes do seu local de origem. 

Embora tenha sido projetado para detectar planetas fora do Sistema Solar, o amplo campo de visão do TESS permite monitorar grandes áreas do céu de forma contínua, o que possibilita também a identificação de asteroides e cometas a grandes distâncias, algo incomum para telescópios espaciais desse tipo.

TESS acompanha cometa interestelar e revela segredos cósmicos (Imagem: NASA’s Goddard Space Flight Center)
TESS acompanha cometa interestelar e revela segredos cósmicos (Imagem: NASA’s Goddard Space Flight Center)

Esse diferencial fez com que o 3I/ATLAS fosse registrado meses antes de sua descoberta oficial, ainda em 2025. Ao reprocessar imagens antigas e aplicar técnicas de empilhamento e subtração de fundo, os astrônomos conseguiram reconstruir sua trajetória passada e extrair dados valiosos sobre sua atividade. Principais parâmetros analisados:

  • Taxa de liberação de poeira e gases;
  • Velocidade de rotação do núcleo;
  • Variações de brilho ao longo do tempo;
  • Estrutura da coma e da cauda.

Um mensageiro antigo da galáxia

Estudos publicados no arXiv e submetidos ao periódico Research Notes of the AAS indicam que o 3I/ATLAS pode ser mais antigo que o próprio Sistema Solar, tendo vagado pela galáxia por pelo menos 10 milhões de anos sem se aproximar de outras estrelas. Quando atingiu o periélio, ponto de maior proximidade do Sol, o cometa ofereceu uma oportunidade única para a ciência, permitindo observar diretamente um fragmento quase intacto de outro sistema estelar

Cometas interestelares funcionam como verdadeiras cápsulas do tempo cósmicas, pois carregam informações químicas sobre os ambientes onde estrelas e planetas se formaram fora do nosso sistema. Portanto, cada observação desse tipo contribui para testar modelos de formação planetária, comparar a composição de sistemas estelares distintos e compreender como a matéria se distribui pela galáxia.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua como divulgador científico. Apaixonado por ciência e educação, busca tornar o conhecimento acessível de forma clara e responsável.