Quando se fala em gordura corporal, a associação costuma ser imediata com doenças cardiovasculares, especialmente a hipertensão. No entanto, a ciência começa a mostrar que essa visão é incompleta. Dentro do próprio organismo existe um tipo específico de gordura que pode exercer um papel protetor sobre os vasos sanguíneos, ajudando a manter a pressão arterial sob controle.
Pesquisas recentes indicam que a chamada gordura marrom, conhecida principalmente por sua função de aquecimento corporal, também atua diretamente na regulação da pressão arterial. Essa descoberta muda a forma como entendemos a relação entre tecido adiposo e saúde cardiovascular.
Nem toda gordura age da mesma forma no corpo
O organismo humano abriga diferentes tipos de gordura. A gordura branca é responsável por armazenar energia em excesso e, quando acumulada em grandes quantidades, está associada a inflamação, resistência vascular e aumento da pressão. Já a gordura marrom, presente em menor quantidade nos adultos, queima energia e gera calor.
Em modelos animais, a gordura marrom funciona de maneira semelhante à gordura marrom observada em humanos. Além de produzir calor, ela atua como um tecido ativo, capaz de liberar substâncias que influenciam diretamente o funcionamento dos vasos sanguíneos.
Como a gordura marrom protege os vasos

O estudo mostrou que a gordura marrom localizada ao redor dos vasos desempenha um papel essencial na manutenção do relaxamento vascular. Quando esse tecido perde sua identidade e se transforma em gordura branca, ocorre uma mudança importante no ambiente molecular dos vasos.
Essa transformação leva ao aumento de uma enzima chamada QSOX1, que promove o enrijecimento do tecido conjuntivo ao redor das artérias. Como consequência, os vasos passam a ter mais dificuldade para se dilatar, elevando a pressão arterial ao longo do tempo.
Em condições normais, a gordura marrom mantém essa enzima sob controle, ajudando a preservar a elasticidade vascular e o fluxo sanguíneo adequado.
Um mecanismo independente do aquecimento corporal
Embora a gordura marrom seja rica em mitocôndrias e participe da produção de calor, esse efeito protetor sobre a pressão arterial ocorre por um caminho diferente. O tecido atua como uma estrutura secretora, liberando proteínas que modulam o ambiente vascular local.
Entre os efeitos observados estão:
- Redução do enrijecimento das artérias
- Maior capacidade de relaxamento vascular
- Menor resposta exagerada a hormônios que elevam a pressão
- Proteção contra o desenvolvimento da hipertensão
Mesmo pequenas quantidades desse tecido foram suficientes para gerar impactos significativos na fisiologia cardiovascular.
O que isso significa para o tratamento da hipertensão
A descoberta abre novas possibilidades para o desenvolvimento de terapias mais precisas contra a hipertensão. Em vez de focar apenas na redução da pressão por medicamentos sistêmicos, futuras estratégias podem buscar preservar ou modular a função da gordura marrom.
Além disso, o bloqueio específico da enzima QSOX1 surge como um alvo promissor para impedir o enrijecimento vascular associado ao aumento da pressão arterial.
Base científica da descoberta
Os achados foram publicados na revista científica Science, no estudo “Prdm16 ablation and loss of beige fat identity causes vascular remodeling and elevated blood pressure”, liderado por Paul Cohen, com publicação em 15 de janeiro de 2026 (DOI: 10.1126/science.ady8644).
A pesquisa reforça que o tecido adiposo não é apenas um depósito de energia, mas um regulador ativo da saúde cardiovascular.

