Incêndios florestais deixaram de ser apenas uma ameaça ambiental localizada e passaram a representar um risco silencioso e persistente à saúde humana. Evidências científicas recentes indicam que a exposição prolongada à fumaça de incêndios florestais pode aumentar significativamente o risco de acidente vascular cerebral (AVC), especialmente entre pessoas idosas.
Um grande estudo nacional conduzido nos Estados Unidos revela que esse tipo específico de poluição atmosférica pode ser mais nocivo ao sistema cardiovascular do que outras fontes conhecidas de partículas finas.
O que o estudo investigou
A pesquisa intitulada “Long-term exposure to wildfire smoke particulate matter and incident stroke: a US nationwide study”, publicada em 27 de janeiro de 2026 no European Heart Journal, analisou a relação entre a exposição crônica à PM₂.₅ proveniente da fumaça de incêndios florestais e a ocorrência de AVC. O estudo teve como autora principal Hua Hao e incluiu pesquisadores como Álvaro Alonso e Yang Liu (DOI: 10.1093/eurheartj/ehaf875).
Foram avaliados dados de aproximadamente 25 milhões de adultos com 65 anos ou mais, todos participantes do programa Medicare, acompanhados entre 2007 e 2018. Durante esse período, cerca de 2,9 milhões de indivíduos sofreram um AVC, permitindo uma análise robusta da associação entre poluição e risco cardiovascular.
Resultados que chamam atenção
Os pesquisadores utilizaram modelos avançados com inteligência artificial para estimar a exposição individual à fumaça de incêndios florestais, isolando esse fator de outras fontes de poluição atmosférica. O principal achado foi claro:
para cada aumento médio de 1 µg/m³ de PM₂.₅ oriunda de incêndios florestais, o risco de AVC aumentou 1,3%.
Em comparação, partículas finas provenientes de fontes urbanas tradicionais, como tráfego e usinas de energia, estiveram associadas a um aumento menor, de 0,7% no risco de AVC para a mesma concentração. Isso sugere que a composição química da fumaça de incêndios pode ter efeitos mais agressivos sobre vasos sanguíneos e o cérebro.
Possíveis mecanismos biológicos
Embora o estudo seja observacional, os autores apontam mecanismos plausíveis que ajudam a explicar essa associação. A fumaça de incêndios florestais contém uma mistura complexa de partículas e gases capazes de induzir:
- Inflamação sistêmica
- Estresse oxidativo
- Danos endoteliais
- Maior propensão à formação de coágulos
Esses processos estão diretamente ligados ao desenvolvimento de eventos cerebrovasculares.
Implicações para saúde pública
Um ponto crítico destacado pelo estudo é a ausência de um limite seguro de exposição. Mesmo níveis moderados e recorrentes de fumaça podem representar risco cumulativo ao longo do tempo. Além disso, populações rurais e suburbanas tendem a ser mais expostas, diferentemente da poluição urbana tradicional.
Diante do aumento da frequência e intensidade dos incêndios florestais, os achados reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas à prevenção de incêndios, melhoria da qualidade do ar em ambientes internos, criação de abrigos com ar filtrado e garantia de continuidade do cuidado médico durante eventos de fumaça.

