Anticorpo inovador pode mudar o tratamento do câncer de mama agressivo

Anticorpo experimental bloqueia proteína ligada ao câncer agressivo. (Foto: Pixelshot via Canva)
Anticorpo experimental bloqueia proteína ligada ao câncer agressivo. (Foto: Pixelshot via Canva)

O câncer de mama triplo-negativo segue sendo um dos maiores desafios da oncologia moderna. A ausência de receptores hormonais e de HER2 limita as opções terapêuticas, favorecendo recidivas precoces, metástases e resistência aos tratamentos convencionais. No entanto, uma nova estratégia baseada em anticorpos monoclonais surge como uma possível virada nesse cenário.

Um estudo publicado em janeiro de 2025 na revista Breast Cancer Research, intitulado A proteína 2 relacionada à frizzled secretada, mediada por anticorpo monoclonal, reprograma macrófagos associados a tumores para suprimir o câncer de mama triplo negativo, apresenta resultados animadores. 

Liderada por Lillian Hsu, a pesquisa descreve o desenvolvimento de um anticorpo humanizado capaz de bloquear a proteína SFRP2, um elemento central na progressão tumoral e na supressão do sistema imunológico (DOI: 10.1186/s13058-025-02176-6).

Um alvo estratégico no microambiente tumoral

A SFRP2 atua como facilitadora do câncer ao estimular a formação de vasos sanguíneos, proteger células malignas da morte programada e enfraquecer a resposta imune local. Diferentemente de outros alvos, essa proteína está presente não apenas nas células tumorais, mas também em células imunes que circundam o tumor, como macrófagos associados ao tumor e linfócitos infiltrantes.

Ao bloquear a SFRP2, o anticorpo interfere simultaneamente em múltiplos mecanismos de sobrevivência do câncer, o que amplia seu potencial terapêutico e reduz a chance de escape tumoral.

Reeducação do sistema imunológico

Um dos achados mais relevantes do estudo foi a capacidade do anticorpo de reprogramar macrófagos. No câncer triplo-negativo, essas células costumam assumir um perfil imunossupressor, conhecido como M2, que favorece o crescimento do tumor. Após o tratamento, houve um redirecionamento para o perfil M1, associado à destruição de células cancerígenas.

Além disso, o tratamento restaurou a atividade das células T, frequentemente exaustas nesse tipo de câncer. Esse efeito duplo fortalece o ambiente imunológico ao redor do tumor e pode ampliar a eficácia de futuras imunoterapias combinadas.

Redução de metástases e alta precisão

Em modelos animais avançados, o anticorpo reduziu significativamente a formação de metástases pulmonares, um marcador de pior prognóstico clínico. Outro diferencial importante foi sua alta especificidade, com acúmulo predominante no tecido tumoral e mínima interação com órgãos saudáveis, o que sugere menor risco de efeitos colaterais.

Superando a resistência à quimioterapia

Mesmo em células tumorais resistentes à doxorrubicina, uma quimioterapia amplamente utilizada, o anticorpo manteve sua capacidade de induzir morte celular. Esse dado reforça seu potencial como alternativa em casos nos quais os tratamentos padrão deixam de funcionar.

Perspectivas futuras

Ao integrar controle do crescimento tumoral, reativação imunológica e superação da resistência terapêutica, o bloqueio da SFRP2 representa uma nova abordagem de terapia de precisão

Embora ainda em fase pré-clínica, o estudo aponta um caminho promissor para ampliar as opções de tratamento do câncer de mama triplo-negativo, uma condição que ainda carece de soluções eficazes.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.