Enquanto na Terra aguardamos as tradicionais chuvas de meteoros anuais, um evento ainda mais raro pode estar prestes a ocorrer em outro planeta: Vênus poderá atravessar uma vasta nuvem de detritos espaciais, produzindo uma intensa chuva de meteoros. O fenômeno tem origem na fragmentação de um asteroide ocorrida há milhares de anos, cujos restos ainda circulam pelo Sistema Solar.
Embora a ideia seja fascinante, a maioria desse espetáculo permanecerá invisível para nós. Apenas meteoros extremamente brilhantes poderiam ser detectados a partir da Terra, e mesmo assim de forma pontual. Para entender a importância dessa previsão, três pontos são essenciais:
- A origem envolve dois asteroides quase idênticos em órbita;
- A fragmentação não foi causada por impacto, mas por estresse térmico solar;
- Os detritos podem gerar uma chuva semelhante às Geminídeas, vistas na Terra.
Dois corpos, uma história comum
Os objetos envolvidos pertencem a um grupo raro de asteroides chamados Atiras, cujas órbitas permanecem inteiramente dentro da trajetória da Terra. Ambos apresentam características físicas semelhantes e completam uma volta ao redor do Sol em apenas 115 dias, tornando-se alguns dos asteroides mais rápidos já observados.
Essa semelhança extrema levou astrônomos, liderados por Albino Carbognani, do Instituto Nacional de Astrofísica da Itália, a suspeitar que os dois corpos eram, na verdade, fragmentos de um único asteroide ancestral.
Resumo do fenômeno em Vênus
| Origem | Asteroide do grupo Atira, fragmentado há milhares de anos |
| Causa da ruptura | Calor extremo do Sol + efeito YORP (aceleração da rotação) |
| Período orbital | 115 dias, entre os asteroides mais rápidos conhecidos |
| Planeta afetado | Vênus |
| Tipo de chuva | Meteoros asteroides, sem cometa, semelhantes às Geminídeas |
| Brilho esperado | Apenas meteoros extremamente brilhantes visíveis da Terra |
| Detritos | Corrente de poeira ainda cruza a órbita de Vênus e pode gerar chuva em julho |
O papel do calor extremo e do efeito YORP
As simulações orbitais indicam que esse asteroide original chegou a se aproximar do Sol a cerca de 15 milhões de quilômetros, uma distância suficiente para causar aquecimento intenso. Esse calor repetido provavelmente gerou rachaduras internas, enfraquecendo sua estrutura.
Ao mesmo tempo, a rotação do corpo foi acelerada pelo chamado efeito YORP, um fenômeno em que a radiação solar funciona como um leve motor, aumentando gradualmente a velocidade de giro do asteroide. Combinados, esses fatores podem ter levado à ruptura espontânea do objeto, sem necessidade de colisões.
Detritos ainda vagando pelo espaço
Os fragmentos microscópicos liberados nessa quebra formaram uma corrente de poeira orbital, que continua cruzando a órbita de Vênus até hoje. Modelos computacionais sugerem que o planeta deve interceptar essa nuvem novamente em julho, gerando uma chuva de meteoros em sua atmosfera.
Diferentemente da maioria das chuvas terrestres, geralmente associadas a cometas, esse evento seria puramente asteroidal, semelhante ao que ocorre com as Geminídeas.
Sem sondas ativas em Vênus atualmente, o fenômeno deve passar despercebido. No entanto, futuras missões como DAVINCI, VERITAS e EnVision poderão registrar diretamente esse tipo de evento, transformando chuvas de meteoros em ferramentas científicas para estudar a dinâmica de asteroides e a própria atmosfera venusiana.
Mais do que um espetáculo distante, essa possível chuva em Vênus mostra como fragmentações antigas continuam moldando o presente do Sistema Solar.

