Fita de DNA promete guardar toda a internet por milhares de anos

Nova fita de DNA pode guardar dados digitais por milhares de anos (Imagem: NunDigital via Canva)
Nova fita de DNA pode guardar dados digitais por milhares de anos (Imagem: NunDigital via Canva)

Imagine concentrar toda a memória digital do mundo em algo menor que um grão de açúcar e ainda garantir que esses dados resistam por milhares de anos. Essa ideia, que parecia ficção científica há pouco tempo, começa a ganhar forma com uma nova tecnologia de armazenamento em DNA inspirada em um objeto clássico: a fita cassete.

Embora o uso do DNA como mídia informacional já seja estudado há mais de uma década, o grande obstáculo sempre foi a escalabilidade física. Tubos, placas e microgotas funcionam em laboratório, mas se tornam inviáveis quando o volume cresce. Além disso, dificultam a automação, a localização dos arquivos e o controle operacional. A proposta recente publicada na Science Advances tenta resolver exatamente esse problema ao transformar o DNA em uma mídia flexível, endereçável e mecanicamente estável. Três pontos explicam por que essa tecnologia chama tanta atenção:

  • Densidade extrema: até 455 exabytes por grama de DNA;
  • Durabilidade molecular: potencial de preservação por milhares de anos;
  • Armazenamento sem energia contínua, dispensando refrigeração.

Do código binário ao código genético

Nesse sistema, a informação deixa de ser representada por 0 e 1 e passa a ser escrita com as letras A, C, G e T, as mesmas que compõem o genoma. Os dados são depositados em uma fita formada por nylon e poliéster, tratada quimicamente para atuar como um suporte físico onde o DNA é fixado sem se espalhar.

Cada fita contém centenas de milhares de partições, funcionando como “endereços” físicos. Um leitor automatizado identifica esses pontos por códigos de barras, permitindo localizar qualquer arquivo em frações de segundo, mesmo que o conteúdo esteja disperso em escala microscópica.

Além disso, o processo é regravável: o mesmo local pode ser apagado e reutilizado, algo essencial para transformar DNA em uma mídia prática, e não apenas experimental.

Proteção molecular e estabilidade de longo prazo

Para impedir que o material se degrade com o tempo, os pesquisadores aplicaram uma camada protetora feita de estruturas cristalinas conhecidas como ZIFs. Essas “escamas moleculares” isolam o DNA contra umidade, calor e reações químicas, aumentando drasticamente sua estabilidade.

Esse detalhe é crucial, pois a principal vantagem do DNA sobre mídias eletrônicas é justamente sua resistência ao tempo, superior à de qualquer HD, SSD ou fita magnética já criada.

Onde essa tecnologia faz mais sentido

Apesar do enorme potencial, o desempenho ainda é lento: copiar arquivos pequenos pode levar minutos. Por isso, o uso mais promissor está nos chamados dados frios, como:

  • Arquivos históricos e culturais;
  • Backups científicos e jurídicos;
  • Registros médicos de longo prazo;
  • Preservação de conhecimento humano.

Em um futuro mais distante, a ideia de centros de dados sustentáveis sem consumo contínuo de energia deixa de ser utopia e passa a ser uma possibilidade real.

Embora ainda cara e distante do consumidor final, essa abordagem sinaliza uma virada conceitual poderosa. Pela primeira vez, nossos dados digitais podem deixar de depender de silício e eletricidade e passar a ser guardados na mesma química que sustenta a vida há bilhões de anos.

Se os custos de síntese caírem, a fita de DNA pode não apenas arquivar o passado, mas redefinir completamente o futuro da informação.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua como divulgador científico. Apaixonado por ciência e educação, busca tornar o conhecimento acessível de forma clara e responsável.