Uso crescente de melatonina em crianças pequenas preocupa especialistas

Melatonina pode interferir no ritmo biológico infantil. (Foto: Evgeniya Shugaliya via Canva)
Melatonina pode interferir no ritmo biológico infantil. (Foto: Evgeniya Shugaliya via Canva)

É comum entre pais a busca por soluções rápidas quando uma criança tem dificuldade para dormir. Muitos recorrem à melatonina, o hormônio natural que sinaliza ao corpo que é hora de descansar. Embora possa parecer uma ajuda simples, o uso cada vez mais frequente entre crianças pequenas levanta questões importantes sobre segurança, necessidade e efeitos a longo prazo.

Esse cenário preocupa porque o sono infantil está ligado a processos de crescimento e desenvolvimento ainda em evolução, e interferências precoces podem ter efeitos duradouros.

O que é a melatonina e como age no sono

A melatonina é produzida pelo cérebro em resposta à escuridão e ajuda a regular o ritmo circadiano, o ciclo diário de sono e vigília. Em adultos, esse hormônio desempenha um papel claro na preparação do corpo para dormir. Em crianças, especialmente as pequenas, esse sistema ainda está amadurecendo.

Por isso, introduzir melatonina artificial pode alterar a forma como o organismo aprende a identificar seus próprios sinais de sono, com possíveis consequências para funções hormonais e metabólicas.

Crescimento no uso entre crianças pequenas

Uma revisão sistemática publicada em 2 de janeiro de 2026 na revista científica JAMA Network Open analisou dezenas de pesquisas sobre o uso de melatonina em crianças de até 6 anos. O trabalho, intitulado “Uso de melatonina em crianças pequenas: uma revisão sistemática”, foi liderado por Chelsea L. Kracht, PhD (DOI: 10.1001/jamanetworkopen.2025.51958).

Os dados observacionais reunidos na revisão mostraram um aumento significativo nas prescrições de melatonina para essa faixa etária em vários países ao longo dos últimos 15 anos, variando de registros nórdicos a centros de saúde na Austrália e nos Estados Unidos.

Uso prolongado além do avaliado em estudos

Especialistas alertam para uso prolongado de melatonina. (Foto: Getty Images via Canva)
Especialistas alertam para uso prolongado de melatonina. (Foto: Getty Images via Canva)

Outro aspecto que chamou atenção foi a duração do uso. Enquanto os ensaios clínicos existentes acompanharam crianças por períodos relativamente curtos, muitos pais relataram que seus filhos continuaram a receber melatonina por dois ou três anos após a primeira prescrição.

Esse uso prolongado levanta incertezas porque não há evidências confiáveis sobre segurança a longo prazo, especialmente em áreas críticas do desenvolvimento infantil, como maturação hormonal, puberdade e saúde metabólica.

Riscos de ingestão acidental crescem

Além da prescrição médica, o aumento do consumo está associado a um crescimento também nos casos de ingestão não supervisionada e intoxicação em emergências pediátricas, especialmente em países onde melatonina é vendida sem receita.

Entre 2009 e 2021, o número de atendimentos hospitalares por exposição acidental à melatonina aumentou de forma marcante. Embora a maioria das ocorrências resulte apenas em sintomas leves, existem registros de casos graves, o que torna o tema um problema de saúde pública em crescente atenção.

Onde os benefícios foram observados

Os ensaios clínicos que analisaram crianças recebendo melatonina encontraram benefícios restritos a grupos específicos, como crianças com transtornos do neurodesenvolvimento, incluindo aquelas no espectro do autismo. Nesses casos, o hormônio pode reduzir o tempo necessário para adormecer e melhorar alguns aspectos do sono.

No entanto, não existem estudos robustos sobre os efeitos do hormônio em crianças com desenvolvimento típico, nem análise ampla dos efeitos a longo prazo de seu uso.

Estratégias comportamentais continuam essenciais

Especialistas reforçam que, para a maioria das crianças, as primeiras abordagens para problemas de sono devem ser mudanças comportamentais e ambientais. Estabelecer rotinas consistentes, reduzir estímulos eletrônicos antes de dormir, manter horários regulares e promover um ambiente tranquilo são medidas que não envolvem riscos medicamentosos e têm eficácia comprovada.

Essas estratégias ajudam o corpo a estabelecer ritmos naturais de sono sem depender de hormônios externos.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.