Intenção de se mover pode voltar a controlar membros paralisados

Cérebro continua enviando sinais mesmo após lesão. (Foto: Minerva Studio via Canva)
Cérebro continua enviando sinais mesmo após lesão. (Foto: Minerva Studio via Canva)

Para pessoas que sofreram lesões na medula espinhal, levantar o braço ou dar um passo pode parecer impossível. No entanto, mesmo quando o corpo não responde, o cérebro continua enviando sinais de movimento

Esses sinais elétricos, que antes pareciam inúteis, agora estão sendo estudados como uma forma de reconectar o cérebro ao corpo e restaurar funções perdidas.

O cérebro não esquece como se mover

A paralisia ocorre principalmente porque os sinais do cérebro não conseguem alcançar os músculos devido a danos na medula espinhal. No entanto, os neurônios motores ainda tentam transmitir comandos. 

Isso significa que o cérebro “continua tentando”, mesmo que os braços ou pernas não se mexam. Detectar esses sinais tornou-se a chave para novas soluções não invasivas.

EEG: escutando a atividade cerebral

EEG capta intenção de movimento e ajuda recuperação. (Foto: Getty Images via Canva)
EEG capta intenção de movimento e ajuda recuperação. (Foto: Getty Images via Canva)

Pesquisadores exploraram o uso da eletroencefalografia (EEG) para capturar a atividade elétrica do cérebro quando os pacientes tentam se mover. Diferente de implantes cerebrais, que exigem cirurgia, o EEG utiliza toucas com eletrodos sobre o couro cabeludo, monitorando a atividade elétrica sem penetrar no corpo.

O desafio é que os sinais mais profundos do cérebro são mais difíceis de captar. Movimentos dos braços e mãos são relativamente mais fáceis de detectar, enquanto os comandos para pernas e pés surgem em regiões centrais do cérebro, exigindo tecnologia avançada para interpretação.

Aprendizado de máquina traduz intenção em movimento

Para interpretar os sinais capturados pelo EEG, os cientistas aplicaram algoritmos de aprendizado de máquina. Esses algoritmos analisam padrões elétricos complexos e conseguem diferenciar quando o paciente tenta se mover de quando permanece imóvel.

Embora ainda haja dificuldade em identificar ações específicas, os resultados indicam que o cérebro pode “comandar” os músculos novamente, contornando a lesão na medula. Futuras melhorias podem permitir que esses sinais acionem estimuladores da medula espinhal, ativando nervos específicos e possibilitando movimentos reais.

O potencial para recuperação funcional

Se essa tecnologia se consolidar, pessoas paralisadas poderiam voltar a caminhar, pegar objetos ou realizar tarefas do dia a dia sem cirurgia invasiva. A estratégia combina sinais cerebrais intactos com tecnologia para criar uma ponte funcional entre cérebro e corpo.

A pesquisa publicada na revista científica APL Bioengineering, intitulada “Decodificando tentativas de movimento dos membros inferiores a partir de sinais eletroencefalográficos em pacientes com lesão medular” por Laura Toni et al., 2026 (DOI: 10.1063/5.0297307), demonstra que a intenção de se mover pode ser capturada e traduzida em ação, mesmo em indivíduos com paralisia crônica.

O estudo abre caminho para novas terapias não invasivas, capazes de melhorar mobilidade, independência e qualidade de vida, mostrando que mesmo após uma lesão grave, o cérebro pode ser parceiro ativo na recuperação.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.