Arte rupestre de 67.800 anos muda nossa compreensão da migração humana

Estêncil de 67.800 anos revela migração humana para a Austrália (Imagem: Max Aubert)
Estêncil de 67.800 anos revela migração humana para a Austrália (Imagem: Max Aubert)

Uma descoberta arqueológica extraordinária em Sulawesi, Indonésia, revelou o estêncil de mão mais antigo do mundo, datado de pelo menos 67.800 anos. Essa obra, preservada em cavernas calcárias na ilha de Muna, não apenas redefine a cronologia da arte rupestre, mas também fornece pistas cruciais sobre a migração de humanos modernos rumo à Austrália.

A pesquisa foi liderada por uma equipe internacional envolvendo a Universidade Griffith, o BRIN da Indonésia e a Universidade Southern Cross, e publicada na revista Nature em 2026. A análise por séries de urânio permitiu datar os depósitos minerais sobre e sob as pinturas, garantindo a precisão científica.

O que torna essa arte tão única?

A caverna de Muna apresenta pinturas produzidas ao longo de milhares de anos, sugerindo um uso artístico contínuo por pelo menos 35.000 anos. Entre os destaques:

  • Estêncil de mão fragmentado com dedos deliberadamente estreitados, criando uma forma quase de garra;
  • Pinturas mais recentes ao redor do estêncil, mostrando a evolução da expressão artística ao longo do tempo;
  • Motivos únicos que não têm paralelo conhecido em outras regiões do mundo.
Arte rupestre mais antiga do mundo muda nossa história (Imagem: Max Aubert)
Arte rupestre mais antiga do mundo muda nossa história (Imagem: Max Aubert)

Essa continuidade indica que Sulawesi abrigava uma das culturas artísticas mais antigas e ricas do planeta, intimamente ligada aos primeiros populadores de Sahul, massa de terra que abrangia Austrália, Tasmânia e Nova Guiné durante o Pleistoceno.

Descoberta em Sulawesi mapeia caminho dos primeiros humanos à Austrália

A descoberta reforça o modelo de cronologia longa, segundo o qual os ancestrais dos australianos indígenas chegaram a Sahul há pelo menos 65.000 anos. Os pesquisadores sugerem duas possíveis rotas migratórias:

  • Rota norte: através de Sulawesi e Ilhas das Especiarias, até a Nova Guiné;
  • Rota sul: via Timor ou ilhas adjacentes, diretamente para a Austrália.

O estêncil de Sulawesi oferece a primeira evidência direta da presença humana nesse corredor migratório, confirmando que os artistas pré-históricos faziam parte da população que depois se espalharia pelo continente australiano.

Arte, simbolismo e legado cultural

Além da técnica e da idade, o estêncil sugere conexões simbólicas profundas entre humanos e animais, visíveis em outras pinturas da região. Este achado amplia a compreensão sobre as raízes da cultura aborígine australiana e indica que a arte já desempenhava papel fundamental na vida social e simbólica de comunidades humanas primitivas.A pesquisa continua, com expedições planejadas para explorar outras ilhas entre Sulawesi e Nova Guiné, buscando mais evidências da primeira expressão artística da humanidade na região.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua como divulgador científico. Apaixonado por ciência e educação, busca tornar o conhecimento acessível de forma clara e responsável.