Viagra esconde solução surpreendente para doença infantil rara

Viagra pode ajudar em doença neurológica infantil rara. (Foto: Getty Images via Canva)
Viagra pode ajudar em doença neurológica infantil rara. (Foto: Getty Images via Canva)

Uma descoberta científica recente traz uma nova perspectiva para uma das doenças infantis mais graves e difíceis de tratar. A sildenafila, princípio ativo do Viagra, apresentou resultados promissores no combate à síndrome de Leigh, uma condição rara que afeta o sistema nervoso desde a primeira infância.

Publicado na revista científica Cell (Annika Zink et al., 19 de março de 2026), o estudo indica que um fármaco já amplamente utilizado pode atuar de forma inesperada no metabolismo celular, oferecendo uma possível nova estratégia terapêutica para doenças mitocondriais.

A síndrome de Leigh e o colapso da energia celular

Estudo revela avanço contra síndrome de Leigh infantil. (Foto: DAPA Images via Canva)
Estudo revela avanço contra síndrome de Leigh infantil. (Foto: DAPA Images via Canva)

A síndrome de Leigh pertence ao grupo das doenças mitocondriais, caracterizadas por falhas na produção de energia dentro das células. Como resultado, tecidos altamente dependentes de energia, como cérebro e músculos, são os mais afetados.

Ao longo da progressão da doença, podem surgir:

  • Convulsões recorrentes
  • Fraqueza muscular progressiva
  • Atraso no desenvolvimento neurológico
  • Problemas respiratórios e motores

Trata-se de uma condição grave, progressiva e atualmente sem tratamento aprovado, o que reforça a urgência por novas abordagens terapêuticas.

A mudança de rota: de vasodilatação ao metabolismo cerebral

Sildenafila mostra melhora na função cerebral em estudo. (Foto: Getty Images via Canva)
Sildenafila mostra melhora na função cerebral em estudo. (Foto: Getty Images via Canva)

A sildenafila é conhecido por atuar como inibidor da enzima PDE-5, com uso estabelecido em disfunções vasculares e hipertensão pulmonar. No entanto, sua ação também pode influenciar a circulação sanguínea e processos metabólicos celulares.

No estudo clínico inicial, seis pacientes com idades entre 9 meses e 38 anos receberam tratamento contínuo com o medicamento. Em poucos meses, foram observadas mudanças relevantes, incluindo:

  • Aumento da força muscular
  • Redução de crises metabólicas
  • Melhora de sintomas neurológicos
  • Maior resistência física em parte dos pacientes

Em alguns casos, os efeitos foram marcantes, com aumento expressivo da capacidade de locomoção e redução quase total de episódios críticos.

Evidências além do corpo humano

Antes da aplicação clínica, a sildenafila foi testada em diferentes modelos experimentais. Os resultados reforçaram seu potencial terapêutico:

  • Células nervosas em laboratório apresentaram melhora na atividade elétrica
  • Organoides cerebrais mostraram crescimento mais eficiente de neurônios
  • Modelos animais tiveram melhora no metabolismo energético e maior sobrevida

Esses achados sugerem um efeito consistente em diferentes níveis biológicos, desde células até organismos vivos.

O desafio das doenças raras e a importância do reposicionamento

Doenças raras como a síndrome de Leigh enfrentam um obstáculo central: o baixo número de pacientes dificulta grandes estudos clínicos. Isso limita o desenvolvimento de terapias específicas.

Nesse contexto, o reposicionamento de medicamentos já aprovados se torna uma estratégia valiosa, pois reduz tempo e custos de pesquisa. Além disso, a sildenafila já possui um histórico de uso seguro em outras condições, inclusive pediátricas.

Próximos passos da pesquisa científica

Diante dos resultados iniciais, os pesquisadores planejam um ensaio clínico maior e controlado na Europa. O objetivo é verificar se os efeitos observados em poucos pacientes podem ser replicados em uma população mais ampla.

A Agência Europeia de Medicamentos também concedeu à sildenafila o status de medicamento órfão, o que pode acelerar seu desenvolvimento para doenças raras.

Descoberta promissora, mas ainda em validação

Embora os resultados sejam animadores, ainda é necessário cautela científica. O estudo representa um primeiro passo importante, mas não uma confirmação definitiva de eficácia.

Mesmo assim, a possibilidade de reutilizar um medicamento amplamente conhecido para tratar uma doença até então incurável reforça o potencial da medicina moderna em transformar o inesperado em esperança terapêutica.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn