Raríssima lagosta bicolor é encontrada e pode viver por 100 anos

Uma em 50 milhões: lagosta bicolor impressiona pela raridade genética (Imagem: Wellfleet Shellfish Company/ Divulgação)
Uma em 50 milhões: lagosta bicolor impressiona pela raridade genética (Imagem: Wellfleet Shellfish Company/ Divulgação)

A natureza às vezes produz fenômenos tão incomuns que parecem ter saído de uma animação. Foi o caso de uma lagosta bicolor extremamente rara, encontrada por pescadores na costa de Cape Cod, em Massachusetts, nos Estados Unidos.

O animal chamou atenção por apresentar uma divisão quase perfeita entre duas cores diferentes em sua carapaça, formando um padrão impressionante e praticamente único. Segundo especialistas, esse tipo de ocorrência acontece em apenas 1 a cada 50 milhões de lagostas, o que transforma o achado em um verdadeiro evento científico.

Pesando mais de 1,3 quilo, o crustáceo foi encaminhado ao Woods Hole Science Aquarium, onde será estudado e posteriormente apresentado ao público como um exemplo raro da complexidade genética da vida marinha.

Por que essa lagosta é tão incomum?

O principal destaque está na forma como suas cores se distribuem. A carapaça apresenta uma separação nítida entre dois tons distintos, quase como se o animal tivesse sido dividido ao meio.

Esse visual incomum fez com que muitas pessoas nas redes sociais passassem a chamá-la de “lagosta algodão-doce”, por causa dos tons suaves e pouco comuns. Entre os fatores que tornam esse caso tão especial estão:

  • Divisão bilateral quase perfeita das cores;
  • Alteração genética extremamente rara;
  • Baixa chance de sobrevivência na natureza;
  • Grande interesse científico e biológico.

Esse tipo de mutação é ainda mais raro do que o famoso caso das lagostas azuis.

O que explica a divisão de cores?

A origem dessa característica está ligada ao desenvolvimento embrionário. Em situações muito raras, dois ovos fertilizados podem se fundir ainda antes do desenvolvimento completo, criando um único organismo com dois conjuntos genéticos diferentes.

Natureza surpreende com lagosta dividida perfeitamente entre duas cores (Imagem: Wellfleet Shellfish Company/ Divulgação)
Natureza surpreende com lagosta dividida perfeitamente entre duas cores (Imagem: Wellfleet Shellfish Company/ Divulgação)

Como resultado, cada metade do corpo passa a seguir instruções distintas de pigmentação. Esse processo interfere diretamente no uso da astaxantina, pigmento responsável pela coloração natural das lagostas. Dependendo de como esse pigmento se organiza, o animal pode apresentar tons variados como azul, vermelho, amarelo, marrom e até colorações mais claras e incomuns.

Em alguns casos, essa condição também pode levar ao chamado ginandromorfismo, quando o organismo apresenta características de macho e fêmea ao mesmo tempo. As estatísticas ajudam a dimensionar o tamanho dessa descoberta:

  • Lagosta azul: 1 em 2 milhões
  • Lagosta vermelha viva: 1 em 10 milhões
  • Lagosta com divisão bilateral: 1 em 50 milhões
  • Lagosta albina completa: 1 em 100 milhões

Isso mostra por que esse tipo de animal desperta tanto fascínio entre pesquisadores e também entre o público.

Sobreviver no oceano foi outro desafio

Além da genética rara, o tamanho da lagosta também surpreendeu os especialistas. Animais com coloração incomum costumam ter dificuldade de se camuflar no ambiente marinho, tornando-se presas mais fáceis para predadores. 

Por isso, o fato de esse exemplar ter ultrapassado 1,3 quilo indica que ele conseguiu sobreviver por bastante tempo em condições desfavoráveis. Agora protegido no aquário, o crustáceo se torna uma oportunidade valiosa para estudos sobre genética, biodiversidade e adaptação.

Mais do que uma curiosidade visual, essa lagosta representa um lembrete impressionante de como a natureza continua produzindo raridades capazes de surpreender até os cientistas mais experientes.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes