Novas análises do rover Perseverance identificaram rochas esbranquiçadas na cratera Jezero que podem registrar um passado inesperadamente úmido. Esses fragmentos ricos em caulinita, descritos em Communications Earth & Environment por Adrian Broz e colaboradores, apontam para um período em que chuvas intensas teriam moldado a paisagem marciana, algo radicalmente diferente do ambiente seco e frio observado hoje.
Logo após essa revelação, alguns pontos essenciais ajudam a compreender a importância da descoberta:
- A caulinita é um tipo de argila que costuma surgir após longos períodos de chuva;
- Na Terra, ela é comum em ambientes tropicais e extremamente úmidos;
- A presença dessa argila em Marte sugere um clima passado muito diferente;
- Os fragmentos variam de seixos a pedregulhos, espalhados ao longo da rota do Perseverance;
- A origem dessas rochas permanece incerta, indicando um quebra-cabeça geológico em aberto.
Por que encontrar caulinita em Marte é tão surpreendente

A caulinita se forma quando águas da chuva lixiviam os minerais originais de uma rocha ao longo de milhões de anos. A identificação desse material em Jezero sugere que a região viveu períodos prolongados de umidade intensa, comparáveis a ambientes tropicais terrestres. Para um planeta que hoje é extremamente seco, isso representa uma guinada na compreensão do seu passado climático.
Além disso, a cratera já abrigou um lago vasto, e a presença dos fragmentos indica que processos hídricos antigos foram mais variados e persistentes do que os modelos atuais preveem.
Embora os pedaços de caulinita estejam espalhados pelo terreno, não há afloramentos próximos que expliquem sua origem direta. A hipótese é que tenham sido carregados por rios que alimentavam o antigo lago de Jezero ou arremessados ali por eventos de impacto. Dessa forma, cada fragmento funciona como uma cápsula do tempo, preservando pistas de uma Marte mais quente e potencialmente muito mais hospitaleira.
Comparações com a Terra e implicações para a habitabilidade

Os cientistas compararam as amostras marcianas com rochas encontradas na Califórnia e na África do Sul, encontrando forte similaridade. Isso reforça a ideia de que Marte passou por condições capazes de sustentar ciclos de chuva duradouros, algo fundamental para a química da vida. Se esse cenário realmente ocorreu, Jezero pode ter sido um ambiente altamente favorável para processos biológicos primitivos.
A investigação continua, e cada novo pedaço de argila pode ajudar a recontar a história de um planeta que, em algum momento remoto, pode ter sido muito mais azul do que vermelho.

