Durante milhões de anos, a Antártida funcionou como uma espécie de cofre climático natural, acumulando em silêncio vestígios de mudanças ambientais que moldaram o planeta. Agora, esse cofre começou a ser aberto. Uma expedição científica internacional conseguiu alcançar sedimentos preservados sob mais de 500 metros de gelo, revelando um dos registros mais antigos já obtidos sobre a evolução do clima terrestre.
O material extraído forma o núcleo subglacial mais longo da história, com camadas que podem remontar a até 23 milhões de anos. Diferentemente de medições feitas por satélites ou sensores modernos, esse tipo de amostra permite observar diretamente como a Terra se comportou em períodos de aquecimento muito anteriores à presença humana.
Na prática, o núcleo funciona como um arquivo geológico contínuo, no qual cada estrato corresponde a um capítulo do passado climático. A partir dele, os pesquisadores buscam responder questões centrais para o futuro do planeta, como:
- Em que momentos a Antártida perdeu parte significativa do gelo;
- Quais níveis de temperatura favoreceram o recuo das calotas;
- Como essas mudanças afetaram o nível dos oceanos;
- Quais fatores tornaram a região mais instável;
- O que isso indica sobre cenários de aquecimento atuais.
O que os sedimentos dizem sobre o passado da Antártida?
As análises iniciais revelaram uma mistura de sedimentos finos, típicos de ambientes sob gelo, com camadas mais grossas, ricas em fragmentos de rochas e restos de organismos marinhos. Essa combinação indica que, em determinados períodos, a região hoje congelada pode ter estado livre de gelo e conectada ao oceano aberto.
A presença de microfósseis dependentes de luz solar reforça essa hipótese. Em outras palavras, partes da Antártida Ocidental já foram biologicamente ativas, algo impensável nas condições atuais. Esses dados ajudam a reconstruir como a calota respondeu a temperaturas globais mais altas, semelhantes às projetadas para os próximos séculos.
O elo entre passado e futuro climático
A importância desse registro vai além da curiosidade histórica. A Antártida Ocidental concentra gelo suficiente para provocar uma elevação de até cinco metros no nível do mar global se derretesse por completo. Hoje, medições mostram que a região já apresenta perda acelerada de massa, impulsionada pelo aquecimento dos oceanos e da atmosfera.
Com base nos sedimentos, os cientistas conseguem calibrar modelos climáticos mais realistas, incorporando não apenas projeções teóricas, mas evidências físicas do passado. Isso permite identificar quais combinações de fatores, como temperatura oceânica, gases de efeito estufa e dinâmica das correntes, foram decisivas para tornar a calota instável.
Em um cenário de mudanças climáticas rápidas, esse núcleo funciona como um sistema de alerta geológico, capaz de antecipar riscos reais para zonas costeiras, ecossistemas e populações humanas ao redor do mundo.

