A maior parte das pessoas associa a água da Terra aos oceanos, rios e geleiras. No entanto, pesquisas recentes publicadas na revista Nature Communications apontam para um cenário muito diferente: o interior profundo do planeta pode concentrar a maior quantidade de hidrogênio existente na Terra, superando com folga tudo o que está disponível na superfície.
De acordo com as novas estimativas, o núcleo terrestre pode conter uma reserva equivalente a nove até 45 vezes o volume de hidrogênio presente nos oceanos atuais. Isso significa que uma fração relevante do elemento responsável pela formação da água não estaria apenas na crosta e no manto, mas principalmente no centro metálico do planeta. Entre os principais resultados do estudo, destacam-se:
- O hidrogênio pode corresponder a até 0,7% da massa do núcleo;
- O núcleo seria o maior reservatório de hidrogênio da Terra;
- A água teria se formado majoritariamente durante o nascimento do planeta;
- Impactos de cometas teriam papel secundário nesse processo.
Simulando o interior da Terra em laboratório
Como o núcleo não pode ser acessado diretamente, os cientistas recorreram a experimentos que reproduzem suas condições extremas. Utilizando equipamentos capazes de gerar pressões gigantescas e temperaturas elevadas, amostras de ferro, principal componente do núcleo, foram analisadas em escala atômica.
A técnica empregada, chamada tomografia de sonda atômica, permite observar a distribuição de elementos dentro dos materiais com altíssima precisão. Isso possibilitou identificar a presença direta de hidrogênio associado ao ferro, além de suas interações com silício e oxigênio.
Com base nessas proporções e em modelos geofísicos já existentes, os pesquisadores conseguiram calcular de forma mais realista quanto hidrogênio poderia estar armazenado no núcleo.
O papel do hidrogênio na evolução do planeta
A descoberta vai além da simples curiosidade geológica. A presença significativa de hidrogênio no núcleo pode estar relacionada ao funcionamento do campo magnético da Terra, já que influencia a circulação de calor entre o núcleo e o manto.
Esse processo é fundamental para manter a proteção magnética contra partículas solares, preservando a atmosfera e criando condições estáveis para a vida ao longo de bilhões de anos. Assim, o hidrogênio, além de participar da formação da água, pode ter sido um elemento-chave na habitabilidade do planeta.
Embora ainda existam incertezas e limitações experimentais, os dados reforçam uma ideia cada vez mais aceita: a água da Terra não chegou apenas de fora, mas está profundamente ligada à própria história de formação do planeta, desde seus estágios mais primitivos.

