Respirar parece um ato simples, mas, a cada inspiração, milhões de nanopartículas invisíveis entram no organismo humano. Essas partículas incluem desde fuligem, poeira e microplásticos até vírus e aerossóis industriais, muitas delas associadas a doenças respiratórias, cardiovasculares e até ao câncer. Apesar de sua importância para a saúde pública, prever como essas partículas se deslocam pelo ar sempre foi um desafio para a ciência.
Agora, um estudo publicado no Journal of Fluid Mechanics por pesquisadores da Universidade de Warwick apresenta um avanço decisivo: um novo método matemático capaz de descrever com precisão o movimento de partículas de qualquer formato, e não apenas de partículas esféricas, como faziam os modelos tradicionais.
Na prática, a maioria dos poluentes atmosféricos tem formas irregulares e assimétricas, mas, por simplicidade, eram tratados como esferas perfeitas. Essa aproximação, embora conveniente, gerava erros significativos na previsão da dispersão da poluição e da dinâmica dos aerossóis. O novo modelo mostrou potencial para aplicações diretas em áreas como:
- Monitoramento da qualidade do ar urbano;
- Modelagem da transmissão de doenças respiratórias;
- Estudos climáticos e atmosféricos;
- Nanotecnologia e medicina.
A física escondida nas partículas microscópicas
O avanço surgiu a partir da reformulação de uma equação clássica da física, criada há mais de um século para explicar o arrasto aerodinâmico em partículas muito pequenas. Essa equação, embora fundamental, era limitada por assumir apenas formas simples.
A nova abordagem introduz um tensor de correção, uma ferramenta matemática que incorpora a influência da forma real da partícula sobre sua movimentação. Isso permite calcular, de forma mais fiel, como ela gira, desacelera e interage com o ar ao redor.
Diferentemente de modelos anteriores, esse método não depende de ajustes empíricos nem de simulações extremamente complexas, o que o torna simples, robusto e altamente aplicável.
Impactos diretos para saúde, clima e tecnologia
Com esse novo modelo, será possível prever com maior precisão como poluentes se espalham nas cidades, como a fumaça de incêndios florestais se desloca pela atmosfera e como aerossóis virais permanecem suspensos em ambientes fechados. Do ponto de vista da saúde, isso representa um avanço relevante para avaliar riscos reais de exposição, melhorar sistemas de ventilação e filtragem e projetar políticas públicas mais eficazes de controle da poluição.
Além disso, a descoberta fortalece áreas como a nanomedicina, ao permitir prever o comportamento de partículas usadas para transportar medicamentos dentro do corpo. Dessa maneira, ao corrigir uma falha histórica na física dos aerossóis, a ciência dá um passo crucial para compreender melhor o ar que respiramos e, consequentemente, proteger a saúde humana em um mundo cada vez mais exposto a poluentes invisíveis.

