O que realmente existe no centro da Via Láctea? Durante décadas, a resposta parecia clara: um buraco negro supermassivo, conhecido como Sagitário A*, seria o responsável por controlar o movimento extremo das estrelas próximas ao núcleo galáctico. No entanto, um novo estudo sugere que essa interpretação pode estar incompleta e que, no lugar do buraco negro, pode existir um núcleo denso de matéria escura.
A matéria escura é um dos componentes mais enigmáticos do universo. Invisível, indetectável por luz, mas fundamental para explicar a estrutura das galáxias, ela responde pela maior parte da massa cósmica. O novo modelo propõe que essa substância não está apenas distribuída em grandes halos, mas também pode formar estruturas compactas no centro das galáxias. De forma resumida, o modelo consegue explicar ao mesmo tempo:
- As órbitas extremamente rápidas das estrelas centrais,
- A dinâmica de objetos próximos ao núcleo;
- E a rotação global da galáxia em regiões mais externas.
Um objeto invisível, mas com gravidade real
Segundo a nova proposta, o centro da Via Láctea seria dominado por um tipo especial de matéria escura chamada matéria escura fermiônica, composta por partículas subatômicas leves. Essas partículas poderiam se organizar em um aglomerado supercompacto, com massa suficiente para reproduzir os efeitos gravitacionais de um buraco negro.
Na prática, isso significa que as estrelas conhecidas como estrelas S, que orbitam o centro a velocidades próximas de milhares de quilômetros por segundo, não precisariam estar girando ao redor de um buraco negro, mas sim em torno de um núcleo de matéria escura extremamente denso.
Esse núcleo, por sua vez, estaria conectado a um halo de matéria escura mais amplo, formando uma única estrutura contínua que explica tanto os fenômenos do centro quanto os da periferia galáctica.
Dados de precisão fortalecem o modelo
Um dos principais pilares da nova hipótese são os dados da missão Gaia DR3, que mediu com precisão sem precedentes o movimento de bilhões de estrelas. Essas observações revelaram um comportamento chamado declínio kepleriano na rotação do halo galáctico, algo compatível com um halo de matéria escura mais compacto do que o previsto pelos modelos tradicionais.
Enquanto os modelos clássicos assumem uma distribuição extensa e difusa da matéria escura, o modelo fermiônico prevê uma concentração maior de massa nas regiões centrais, o que se ajusta melhor às medições recentes.
Outro ponto crucial é que esse núcleo de matéria escura poderia curvar a luz de forma intensa, gerando uma imagem muito semelhante à famosa “sombra do buraco negro” registrada por telescópios modernos. Visualmente, os dois cenários seriam quase indistinguíveis.A diferença real estaria em detalhes físicos sutis, como a presença dos chamados anéis de fótons, previstos apenas para buracos negros. Futuras observações mais precisas poderão detectar essas assinaturas e, finalmente, responder à pergunta: o coração da Via Láctea é um buraco negro, ou uma das maiores concentrações de matéria escura já imaginadas?

