Estranha estrutura no espaço pode ser fábrica de planetas colossais

Hambúrguer cósmico pode ser berçário de planetas gigantes (Imagem: NASA)
Hambúrguer cósmico pode ser berçário de planetas gigantes (Imagem: NASA)

Imagine observar um sistema estelar tão peculiar que sua forma lembra um hambúrguer flutuando no espaço. Apesar do apelido descontraído, o chamado Hambúrguer de Gómez (GoHam) está longe de ser apenas uma curiosidade visual. Trata-se de um dos maiores e mais detalhados discos protoplanetários já estudados, oferecendo pistas valiosas sobre como planetas gigantes podem se formar ao redor de estrelas jovens. Mais do que isso, suas características indicam que ali pode surgir, no futuro, um sistema com vários planetas.

Logo de início, o GoHam chama atenção por ser observado quase perfeitamente de perfil, algo raro nesse tipo de estrutura. Essa orientação privilegiada permite aos astrônomos analisar, com precisão incomum, a distribuição vertical e horizontal de gás e poeira, elementos essenciais para compreender a origem dos planetas. Principais destaques da descoberta:

  • Disco extremamente extenso, com milhares de vezes a distância Terra–Sol;
  • Grande concentração de poeira, acima da média observada;
  • Sinais claros de instabilidade gravitacional, associados à formação planetária.

Um laboratório natural para entender a origem dos mundos

Berçários cósmicos: discos protoplanetários dão origem a planetas (Imagem: Fala Ciência via Gemini)
Berçários cósmicos: discos protoplanetários dão origem a planetas (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

Discos protoplanetários funcionam como verdadeiros berçários cósmicos, onde partículas microscópicas colidem, se aglutinam e evoluem até formar planetas. No caso do GoHam, os dados obtidos pelo Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA) revelaram uma organização em camadas altamente estruturada. Gases mais leves ocupam regiões superiores, enquanto moléculas mais pesadas e grãos de poeira se concentram no plano central, um padrão consistente com modelos avançados de evolução planetária.

Além disso, o volume total de material sólido é excepcional. Essa abundância aumenta significativamente a probabilidade de surgirem planetas gigantes gasosos, semelhantes ou até maiores que Júpiter, especialmente em órbitas mais distantes da estrela central.

Assimetria, ventos e possíveis planetas em gestação

Estrutura rara no espaço ajuda a explicar como planetas nascem (Imagem: NSF/AUI/NSF NRAO/P.Vosteen)
Estrutura rara no espaço ajuda a explicar como planetas nascem (Imagem: NSF/AUI/NSF NRAO/P.Vosteen)

Apesar da aparência organizada, o Hambúrguer de Gómez está longe de ser perfeitamente simétrico. Um dos lados do disco apresenta emissão de poeira mais intensa, sugerindo a presença de vórtices capazes de aprisionar material sólido. Essas regiões funcionam como armadilhas naturais, favorecendo o crescimento acelerado de corpos planetários.

No lado oposto, observa-se um vento fotoevaporativo, fenômeno no qual a radiação da estrela empurra parte do gás para fora do disco. Soma-se a isso a detecção localizada de compostos de enxofre, associados a uma região densa conhecida como GoHam b, que pode representar um planeta gigante em estágio inicial de formação.

Essas características transformam o Hambúrguer de Gómez em um caso-chave para a astrofísica moderna. Ele ajuda a responder perguntas fundamentais sobre como planetas gigantes se formam, evoluem e moldam seus sistemas. Mais do que uma imagem curiosa, esse “hambúrguer cósmico” pode ser uma das receitas mais completas já observadas para entender o nascimento de novos mundos.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes