Poucos eventos são tão raros na astronomia quanto a passagem de um cometa interestelar pelo nosso Sistema Solar. Em um desses encontros excepcionais, o cometa 3I/ATLAS surpreendeu cientistas ao apresentar uma erupção intensa de gás e poeira justamente quando já se afastava do Sol. O fenômeno foi detectado pelo telescópio espacial SPHEREx, especializado em observações no infravermelho, permitindo uma análise detalhada da composição química do objeto.
Esse comportamento é incomum porque, em geral, cometas mostram maior atividade durante a aproximação do Sol. No entanto, o 3I/ATLAS apresentou um aumento expressivo de brilho e liberação de material semanas após o periélio, indicando processos internos mais complexos do que o esperado.
Principais substâncias detectadas na coma
A análise do cometa revelou a liberação de vapor de água (H₂O), dióxido de carbono (CO₂), além de metano, metanol, cianeto e outros compostos orgânicos complexos, juntamente com poeira rochosa rica em carbono. Esses elementos são considerados blocos fundamentais da formação planetária e estão diretamente ligados à química que, em condições adequadas, pode favorecer o surgimento da vida.
A chamada explosão química fora de hora ocorreu porque a energia solar penetrou lentamente nas camadas internas do cometa, aquecendo gelos antigos protegidos por uma crosta externa modificada ao longo de bilhões de anos pela ação de raios cósmicos. Quando o calor alcançou regiões mais profundas, houve uma liberação súbita de material volátil, formando uma coma extremamente brilhante e uma cauda de poeira assimétrica.

Além disso, a observação em infravermelho foi essencial para identificar o fenômeno. Diferente da luz visível, esse tipo de radiação permite detectar assinaturas moleculares específicas, revelando não apenas a presença de poeira, mas também a diversidade química detalhada do objeto. Principais destaques do evento:
- Detecção de moléculas associadas à formação de planetas e da vida;
- Liberação tardia de gelos profundos aquecidos pela radiação solar;
- Formação de coma brilhante e cauda de poeira irregular;
- Uso do infravermelho para mapear a composição química com precisão.
Um mensageiro de outra estrela
O 3I/ATLAS é apenas o terceiro objeto interestelar confirmado já observado atravessando nosso sistema. Isso significa que ele se formou ao redor de outra estrela, em um ambiente completamente diferente do nosso. Dessa forma, sua composição funciona como uma amostra natural de outro sistema planetário.
Comparar seus elementos químicos com os dos cometas locais ajuda a responder uma questão central da astrobiologia: os ingredientes para a formação de planetas e da vida são universais?
Estudos publicados na revista Research Notes of the AAS indicam que, apesar da origem externa, o 3I/ATLAS apresenta moléculas muito semelhantes às encontradas em cometas do Sistema Solar, sugerindo que os processos químicos fundamentais podem ser comuns em toda a Via Láctea.
Uma cápsula do tempo interestelar
Em síntese, o cometa 3I/ATLAS funciona como uma verdadeira cápsula do tempo cósmica, preservando material químico formado em outra região da galáxia. Sua erupção tardia ofereceu uma oportunidade única de observar substâncias que permaneceram intocadas por bilhões de anos, ampliando significativamente nossa compreensão sobre a diversidade e a repetição dos processos que moldam sistemas planetários.

