Cientistas encontram “primo estranho” das aranhas com cauda surpreendente

Fóssil de 100 milhões de anos mostra aranha com cauda única (Imagem: Nobu Tamura/ Licença CC BY-SA 4.0)
Fóssil de 100 milhões de anos mostra aranha com cauda única (Imagem: Nobu Tamura/ Licença CC BY-SA 4.0)

Imagine uma aranha antiga com corpo semelhante ao de espécies modernas, mas com uma cauda longa e segmentada, uma característica que desapareceu há milhões de anos. Essa é a revelação do fóssil de Chimerarachne yingi, descoberto em 2018 e analisado detalhadamente apenas recentemente. Com aproximadamente 100 milhões de anos, essa criatura oferece uma visão única sobre como os aracnídeos evoluíram ao longo do tempo, combinando traços primitivos e modernos em um mesmo organismo.

A Chimerarachne não é simplesmente uma curiosidade: ela ajuda a reconstruir a história evolutiva das aranhas e demonstra que nem todas as características que conhecemos surgiram simultaneamente.

Um corpo híbrido entre aranhas e escorpiões

O estudo, publicado na Nature, revela que a Chimerarachne apresentava uma combinação singular de traços:

  • Fiandeiras, semelhantes às aranhas atuais, para produção de seda;
  • Pedicelo, a cintura estreita típica dos aracnídeos modernos;
  • Abdômen segmentado, lembrando espécies ancestrais;
  • Cauda longa e flexível, chamada tecnicamente de télson flageliforme.

Essa mistura de características mostra que a evolução ocorreu de forma mosaico, com diferentes traços aparecendo e desaparecendo em momentos distintos.

Funções misteriosas da cauda pré-histórica

Chimerarachne yingi: aranha pré-histórica com traços surpreendentes (Imagem: Gonzalo Giribet/ CCO 1.0)
Chimerarachne yingi: aranha pré-histórica com traços surpreendentes (Imagem: Gonzalo Giribet/ CCO 1.0)

A cauda da Chimerarachne é o elemento mais intrigante da espécie, e os pesquisadores levantam diversas hipóteses sobre sua função. Ela poderia ter atuado como um órgão sensorial, ajudando o animal a se orientar no ambiente, funcionando também como um mecanismo de defesa para intimidar predadores ou até mesmo como um artifício de distração, semelhante à cauda de alguns lagartos, facilitando a fuga em situações de perigo. 

Embora seu papel exato ainda não seja conhecido, a presença desse apêndice revela novas perspectivas sobre a diversidade e a adaptação dos aracnídeos antigos.

Impacto na árvore evolutiva dos aracnídeos

A descoberta reforça que a Chimerarachne yingi representa um “primo” evolutivo das aranhas modernas, e não seu ancestral direto. Esse achado preenche lacunas importantes na árvore genealógica dos aracnídeos, mostrando que linhas evolutivas distintas coexistiram há milhões de anos e exibiam formas variadas, algumas com características hoje extintas.

Combinando pesquisa microscópica avançada e imagens 3D de alta resolução, o estudo destaca como a paleontologia moderna continua a revelar segredos surpreendentes sobre a evolução e a diversidade da vida antiga.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua como divulgador científico. Apaixonado por ciência e educação, busca tornar o conhecimento acessível de forma clara e responsável.