Chuvas extremas podem ser a principal fonte de plástico nos mares

Poucos dias de chuva concentram a maior parte do plástico nos rios (Imagem: Getty Images via Canva)
Poucos dias de chuva concentram a maior parte do plástico nos rios (Imagem: Getty Images via Canva)

Quando se fala em poluição plástica, a imagem mais comum é a de lixo acumulado em praias ou grandes ilhas de resíduos flutuando no oceano. No entanto, novas evidências científicas indicam que o problema começa muito antes de o plástico chegar ao mar. De acordo com um estudo publicado na revista Water Research, a maior parte do plástico transportado pelos rios ocorre em curtos períodos de enchente, e não durante o fluxo normal da água.

Isso significa que os métodos tradicionais de monitoramento ambiental, que costumam analisar rios em condições estáveis, podem estar subestimando drasticamente o volume real de resíduos plásticos despejados nos oceanos ao longo do ano. Os pesquisadores observaram padrões claros:

  • Durante cheias, a concentração de microplásticos e mesoplásticos aumenta entre 10 e 10.000 vezes;
  • Em determinados rios, até 90% da carga anual de plástico foi transportada em menos de dois meses;
  • Regiões urbanas apresentam os maiores picos de contaminação.

A lógica invisível do escoamento urbano

O principal mecanismo por trás desse fenômeno é o escoamento superficial. Em períodos de chuva intensa, resíduos acumulados em ruas, sistemas de drenagem, áreas agrícolas e superfícies impermeáveis são rapidamente arrastados para os rios.

Esse processo transforma as enchentes em eventos críticos de exportação de poluentes, funcionando como verdadeiros “pulsos de contaminação” que injetam grandes quantidades de partículas plásticas na rede hidrográfica.

Com o tempo, embalagens, sacolas e fragmentos maiores se degradam, dando origem aos microplásticos (menos de 5 mm) e mesoplásticos (até 25 mm), que se dispersam com facilidade e passam despercebidos em análises visuais.

Turbidez como indicador de poluição plástica

Um dos achados mais relevantes foi a forte associação entre turbidez da água (quantidade de sólidos em suspensão) e concentração de partículas plásticas. Em termos práticos, isso indica que quanto mais turva a água durante uma enchente, maior tende a ser a carga de microplásticos.

Essa relação abre espaço para estratégias mais eficientes de monitoramento, já que a turbidez é um parâmetro simples, barato e amplamente utilizado em programas ambientais.

Implicações para políticas ambientais

O estudo demonstra que a poluição plástica é altamente episódica, concentrando-se em poucos dias marcados por eventos extremos de chuva. Ignorar esse padrão leva a estimativas distorcidas da realidade e compromete diretamente decisões políticas, investimentos públicos e estratégias de mitigação ambiental. 

Ao incorporar dados de cheias nos modelos de monitoramento, torna-se possível mapear com maior precisão as principais fontes de poluição, priorizar ações em áreas urbanas críticas, aprimorar sistemas de drenagem e retenção de resíduos e, além disso, tornar a educação ambiental mais concreta e mensurável. 

Desse modo, o trabalho evidencia que as enchentes não apenas agravam a poluição plástica, mas definem sua dinâmica central. Diante do aumento de eventos climáticos extremos associado às mudanças climáticas, compreender esse mecanismo deixa de ser uma opção e passa a ser um requisito fundamental para qualquer política realista de proteção dos ecossistemas aquáticos.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes