Astrônomos encontram exoplaneta extremo com densidade incomum perto de estrela solar

Planeta raro revela como mundos perdem suas atmosferas (Imagem: Fala Ciência via Gemini)
Planeta raro revela como mundos perdem suas atmosferas (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

A busca por mundos fora do Sistema Solar acaba de revelar um objeto que desafia modelos tradicionais de formação planetária. Trata-se do TOI-3862 b, um exoplaneta super-Netuno extremamente denso, localizado a cerca de 800 anos-luz da Terra e orbitando uma estrela muito parecida com o Sol. A descoberta, feita com dados do satélite TESS, coloca esse planeta em uma das regiões mais intrigantes da astrofísica moderna: o chamado deserto de Netuno quente.

Em termos simples, esse “deserto” é uma faixa do espaço onde quase não se encontram planetas de tamanho intermediário entre Netuno e Saturno, especialmente em órbitas muito curtas. Portanto, encontrar um objeto como o TOI-3862 b nesse ambiente é como achar um oásis em pleno deserto cósmico. Principais características do TOI-3862 b:

  • Raio aproximado de metade do tamanho de Júpiter;
  • Massa equivalente a cerca de 17% da massa de Júpiter;
  • Densidade média de 1,75 g/cm³, maior que a de Netuno;
  • Período orbital de apenas 1,56 dias;
  • Temperatura de equilíbrio em torno de 1.500 K.

Um planeta pesado em órbita extrema

Além disso, o TOI-3862 b está incrivelmente próximo de sua estrela, a apenas 0,025 unidades astronômicas, uma distância menor que a de Mercúrio ao Sol. Como consequência, o planeta recebe uma intensa radiação, o que explica suas temperaturas elevadas e seu ambiente hostil.

Exoplaneta superdenso desafia teorias no deserto de Netuno (Imagem: arXiv (2026). DOI: 10.48550/arxiv.2601.10450)
Exoplaneta superdenso desafia teorias no deserto de Netuno (Imagem: arXiv (2026). DOI: 10.48550/arxiv.2601.10450)

A estrela hospedeira, por sua vez, é apenas um pouco menor e mais fria que o Sol, com idade estimada em 7,5 bilhões de anos, o que indica que esse sistema é relativamente antigo em termos cósmicos.

Um laboratório natural para estudar atmosferas

O aspecto mais relevante do TOI-3862 b, entretanto, não é apenas sua órbita curta, mas sua composição interna. Modelos teóricos indicam que o planeta apresenta um núcleo metálico de ferro com cerca de 40% de sua estrutura, um manto de silicatos semelhante ao da Terra e apenas uma camada externa muito fina de hidrogênio e hélio.

Esse conjunto de características sugere que o planeta perdeu grande parte de sua atmosfera original ao longo de bilhões de anos, provavelmente devido à intensa radiação da estrela hospedeira. Esse processo, conhecido como remoção atmosférica, é fundamental para explicar por que alguns planetas conseguem manter grandes envelopes gasosos, enquanto outros evoluem para mundos mais compactos, quentes e densos.

Por fim, o TOI-3862 b se torna um objeto de referência para estudar a evolução planetária sob condições extremas, pois ajuda a responder questões centrais da astrofísica, como os motivos pelos quais certos planetas desaparecem do chamado deserto de Netuno, de que forma a radiação estelar molda atmosferas ao longo de bilhões de anos e quais fatores determinam se um planeta seguirá um caminho gasoso ou evoluirá para um corpo mais compacto e denso

Assim, mais do que um simples novo planeta, o TOI-3862 b funciona como uma verdadeira janela para compreender o destino de mundos expostos a ambientes extremos, ampliando significativamente nossa percepção sobre a diversidade dos sistemas planetários existentes na galáxia.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua como divulgador científico. Apaixonado por ciência e educação, busca tornar o conhecimento acessível de forma clara e responsável.