Dieta cetogênica reduziu tumores em camundongos e revelou um mecanismo inesperado

Estudo investigou os efeitos da dieta cetogênica sobre tumores. (Imagem: DalaiFood)

Uma mudança na alimentação pode influenciar não apenas o metabolismo, mas também a maneira como o sistema imunológico reage ao câncer. Essa possibilidade foi investigada em um estudo que encontrou resultados promissores com a dieta cetogênica, um padrão alimentar caracterizado pelo consumo elevado de gorduras e pela redução acentuada de carboidratos.

Em experimentos com camundongos portadores de tumores, os pesquisadores observaram que essa dieta esteve associada à redução do crescimento tumoral, além de melhorias em alterações emocionais e cognitivas relacionadas à doença.

Os resultados também revelaram um mecanismo interessante envolvendo o intestino. Uma bactéria da microbiota intestinal, chamada Flavonifractor plautii, participou do aumento da disponibilidade de uma substância conhecida como uridina, que parece contribuir para os efeitos observados.

Embora os resultados sejam relevantes, é importante destacar que a pesquisa foi realizada em modelos pré-clínicos. Portanto, ainda não significa que a dieta cetogênica seja um tratamento comprovado contra o câncer em seres humanos.

A alimentação pode interferir na comunicação entre intestino e tumor

A dieta cetogênica provoca mudanças importantes no metabolismo. Como a ingestão de carboidratos é bastante reduzida, o organismo passa a utilizar mais gordura como fonte de energia e aumenta a produção de corpos cetônicos, entre eles o beta-hidroxibutirato.

No estudo, os cientistas identificaram que a intervenção alimentar também modificou a composição da microbiota intestinal e elevou os níveis de uridina no organismo.

A uridina é um nucleosídeo envolvido em diferentes processos biológicos, incluindo a produção de componentes necessários ao funcionamento das células.

Nesse contexto, a bactéria Flavonifractor plautii chamou a atenção por contribuir para a disponibilidade desse composto no hospedeiro.

Assim, os resultados apontam para uma interação entre alimentação, microbiota intestinal e metabolismo, capaz de influenciar mecanismos relacionados à progressão tumoral.

Uma via imunológica pode ajudar o organismo a combater células tumorais

Como a via cGAS-STING é ativada para combater células tumorais. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

Outro achado importante envolve a via de sinalização cGAS-STING, um mecanismo celular associado à identificação de DNA localizado no citoplasma, fora do núcleo da célula.

Em condições específicas, a presença desse material genético pode funcionar como um sinal de alerta, ativando respostas imunológicas.

Os experimentos indicaram que a uridina, em conjunto com o beta-hidroxibutirato, favoreceu o acúmulo de DNA no citoplasma das células tumorais e a ativação dessa via.

Esse processo é relevante porque a sinalização cGAS-STING participa de respostas que podem favorecer a atividade imunológica contra tumores.

Os pesquisadores também investigaram células tumorais e organoides derivados de pacientes, estruturas cultivadas em laboratório que reproduzem algumas características dos tecidos humanos.

Esses experimentos ajudaram a explorar os mecanismos envolvidos, mas não equivalem a um ensaio clínico em pacientes.

Menos inflamação também pode beneficiar o cérebro

A pesquisa não se limitou ao crescimento dos tumores. Os cientistas também observaram alterações relacionadas à inflamação sistêmica, que ocorre quando processos inflamatórios atingem diferentes regiões do organismo.

Em camundongos com tumores, a dieta cetogênica esteve associada à redução de marcadores inflamatórios no sangue e no hipocampo, uma região cerebral importante para a memória e a aprendizagem.

Além disso, foram observadas melhorias em alterações emocionais e cognitivas relacionadas à presença dos tumores.

Os experimentos com suplementação de uridina e transplante de Flavonifractor plautii também produziram efeitos favoráveis sobre os marcadores inflamatórios e os comportamentos avaliados.

Esses resultados sugerem que a comunicação entre intestino, sistema imunológico e cérebro pode participar das alterações provocadas pelo câncer.

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Estudo abre caminho para novas pesquisas sobre metabolismo e câncer

A pesquisa foi publicada em 2 de novembro de 2026, na revista científica Nature Communications, com Heyang Zhang como primeiro autor e Hanping Shi entre os autores.

O trabalho, intitulado Ketogenic diet stimulates tumor cGAS-STING pathway and attenuates systemic inflammation via Flavonifractor plautii-derived uridine, identificou um possível eixo biológico que conecta a alimentação, as bactérias intestinais e a resposta imunológica contra tumores.

Uma das principais contribuições é mostrar que os efeitos metabólicos de uma dieta podem ultrapassar o controle energético e influenciar mecanismos imunológicos e inflamatórios.

Entretanto, existem limitações importantes. Os resultados em camundongos não garantem os mesmos efeitos em seres humanos, e a segurança e a eficácia da dieta cetogênica como estratégia complementar no tratamento do câncer ainda precisam ser investigadas em estudos clínicos.

Além disso, dietas muito restritivas podem provocar deficiências nutricionais e dificuldades de adesão, especialmente em pessoas que já enfrentam os efeitos da doença e de seus tratamentos.

Por isso, pacientes com câncer não devem iniciar uma dieta cetogênica por conta própria nem substituir terapias convencionais por intervenções alimentares.

Aviso importante: Este conteúdo tem caráter informativo e educacional, não substituindo, em hipótese alguma, a avaliação, diagnóstico ou tratamento de um profissional de saúde qualificado.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com sólida experiência em pesquisa acadêmica de ponta, é coautor de um estudo internacional sobre neuroproteção publicado no renomado Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Como editor e fundador do Portal Fala Ciência, sua missão é combater a desinformação, traduzindo descobertas complexas em conhecimento jornalístico acessível, transparente e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes