Gatos têm uma sequência própria para limpar o corpo, revela pesquisa

Gatos utilizam a língua para higienizar diferentes partes do corpo. (Imagem: Pixabay)

Quem convive com gatos já observou a cena: depois de uma soneca, durante um momento de tranquilidade ou após uma brincadeira, o animal começa a passar a língua pelo pelo, limpar as patas e cuidar de diferentes regiões do corpo. Embora pareça um comportamento espontâneo e sem muita organização, a autolimpeza dos gatos segue uma dinâmica própria, com transições entre diferentes partes do corpo.

Um estudo científico publicado em outubro de 2026 investigou justamente esse comportamento e descobriu que os felinos não seguem necessariamente uma sequência rígida para realizar sua higiene. Em vez disso, os movimentos parecem depender principalmente da proximidade entre as regiões que precisam ser limpas e da eficiência dos gestos.

A descoberta ajuda a compreender melhor um hábito que ocupa uma parcela considerável da rotina desses animais.

A higiene dos gatos vai muito além de manter o pelo bonito

A autolimpeza, também conhecida como grooming, desempenha funções importantes para a saúde e o bem-estar dos felinos.

Ao utilizar a língua, os dentes e as patas, os gatos conseguem remover sujeira, resíduos e parte dos parasitas presentes na superfície corporal. Além disso, esse comportamento contribui para a manutenção de estruturas sensoriais importantes, como regiões próximas aos olhos e às orelhas.

Outro aspecto interessante envolve a regulação da temperatura corporal. Durante a limpeza, a saliva depositada sobre o pelo pode evaporar e produzir um efeito refrescante.

Os gatos podem dedicar até 24% do período em que permanecem acordados à autolimpeza, segundo pesquisas anteriores mencionadas no trabalho.

Esse comportamento envolve principalmente três atividades:

  • Limpeza oral: utilização da língua e dos dentes para higienizar diferentes regiões.
  • Lavagem do rosto: uso das patas dianteiras para alcançar a cabeça e a face.
  • Coçar: movimentos realizados principalmente com as patas traseiras.

Entre essas atividades, a limpeza oral costuma ocupar a maior parte do tempo.

Pesquisa observou 17 gatos para entender os movimentos

Infográfico mostra como os gatos organizam o seu banho de autolimpeza. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

Para investigar como os felinos organizam seus movimentos, as pesquisadoras Anna Hock e Manuela Schmidt analisaram o comportamento de 17 gatos domésticos.

Ao todo, foram examinadas 40 sequências de autolimpeza. Os registros permitiram avaliar quanto tempo os animais dedicavam a diferentes regiões corporais e em qual ordem essas áreas eram alcançadas.

Os resultados mostraram diferenças importantes entre os indivíduos. Enquanto alguns gatos distribuíam a limpeza de determinada maneira, outros apresentavam combinações e sucessões diferentes de movimentos.

A higiene oral foi a atividade predominante, enquanto a lavagem do rosto e os episódios de coceira apareceram com menor frequência.

Um dos achados mais interessantes foi que a organização dos movimentos não parecia obedecer a um roteiro fixo. Em vez disso, as transições entre as regiões corporais apresentavam uma relação com a proximidade espacial e a facilidade de movimentação.

Isso significa que, ao limpar uma determinada área, o gato tende a passar para outra região que seja relativamente próxima e acessível.

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Por que cada gato pode apresentar uma rotina diferente?

A pesquisa questiona a ideia de que todos os gatos seguem uma sequência universal de higiene.

Embora existam tendências na organização dos movimentos, a frequência, a duração e a ordem da limpeza variam entre os animais.

Essa flexibilidade pode estar relacionada à eficiência motora, às características individuais e às necessidades de higiene de cada região corporal.

Além disso, a autolimpeza não acontece apenas como resposta à sujeira. Trata-se de um comportamento integrado à rotina dos mamíferos, que também pode ocorrer espontaneamente.

A investigação foi publicada em 1º de outubro de 2026, no Journal of the Experimental Analysis of Behavior. O artigo, intitulado Deciphering diversity: Are there patterns in the organization of self-grooming movements in domestic cats?, tem como autoras principais Anna Hock e Manuela Schmidt.

Os resultados contribuem para ampliar o conhecimento sobre o comportamento dos felinos e mostram que até mesmo uma atividade cotidiana, como tomar banho com a própria língua, apresenta uma organização comportamental complexa.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com sólida experiência em pesquisa acadêmica de ponta, é coautor de um estudo internacional sobre neuroproteção publicado no renomado Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Como editor e fundador do Portal Fala Ciência, sua missão é combater a desinformação, traduzindo descobertas complexas em conhecimento jornalístico acessível, transparente e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes