Exame de sangue identifica sinais da ELA com precisão de 98,3% em estudo

Profissional de saúde segura a mão e apoia o braço de um paciente (Imagem: Getty images)

Durante muito tempo, procurar sinais de uma doença que afeta profundamente o sistema nervoso significou observar principalmente os sintomas. Agora, uma pesquisa aponta para outro caminho: o sangue pode carregar uma assinatura molecular da esclerose lateral amiotrófica, a ELA.

Pesquisadores identificaram uma combinação de dez proteínas presentes no plasma sanguíneo capaz de diferenciar pessoas com ELA de indivíduos saudáveis com uma precisão muito elevada. O resultado chama atenção porque pode contribuir para o desenvolvimento futuro de uma ferramenta de triagem baseada em sangue, potencialmente mais simples de aplicar do que métodos que dependem exclusivamente da avaliação clínica.

O que o plasma pode revelar sobre a ELA

A ELA provoca a degeneração progressiva de neurônios motores, células responsáveis por controlar os movimentos musculares. Conforme essas células são comprometidas, surgem manifestações como fraqueza muscular, perda de força e dificuldades motoras.

O problema é que o diagnóstico pode ser complexo. Por isso, encontrar biomarcadores, moléculas que carreguem informações sobre processos associados à doença, é uma das áreas de interesse da pesquisa neurológica.

Nesse estudo, os pesquisadores analisaram amostras de plasma de 632 pessoas com ELA e 160 indivíduos saudáveis. A investigação utilizou painéis capazes de medir diversas proteínas relacionadas ao sistema nervoso e à inflamação.

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Em seguida, ferramentas de inteligência artificial e aprendizado de máquina ajudaram a identificar quais proteínas apresentavam maior capacidade de contribuir para a classificação das amostras.

Uma espécie de impressão digital molecular

Estudo identifica proteínas no sangue que ajudam a detectar sinais da ELA (Imagem: Getty images)

O processo começou com um conjunto maior de candidatos. Depois das análises estatísticas e computacionais, os pesquisadores chegaram a um painel final composto por:

  • NEFL
  • FOLR1
  • pTau-181
  • TREM1
  • VEGFA
  • NEFH
  • CALCA
  • NRGN
  • LAMP3
  • PTX3

A importância dessa estratégia está justamente na combinação. Em vez de procurar uma única proteína capaz de identificar a ELA, o modelo considera vários sinais simultaneamente.

Entre eles estão proteínas associadas a alterações nos neurônios e seus axônios, além de moléculas relacionadas a processos inflamatórios e respostas celulares. Dessa maneira, o conjunto pode funcionar como uma espécie de assinatura biológica da doença.

A precisão chamou atenção

O trabalho foi publicado em 19 de outubro de 2026 na revista científica Nature Communications, tendo Woo Jae Kim como autor principal.

Depois da etapa inicial, o painel foi testado em um grupo independente formado por 144 pessoas com ELA e 37 controles saudáveis. Essa etapa é importante porque permite verificar se o modelo continua funcionando quando aplicado a indivíduos diferentes daqueles utilizados para sua construção.

Os resultados foram expressivos. O painel apresentou 98,3% de acurácia balanceada e uma AUC de 0,992, indicando elevada capacidade de separar os dois grupos analisados.

Outro detalhe importante é que o desempenho não dependeu apenas da NEFL, uma proteína bastante estudada como marcador de dano axonal. A combinação de diferentes proteínas acrescentou informações complementares ao modelo.

Isso significa que já existe um exame de sangue para ELA?

Ainda não. Os resultados são promissores, mas existe uma diferença importante entre um biomarcador experimental com excelente desempenho e um teste disponível para utilização clínica.

Antes de chegar aos consultórios, o painel precisa passar por novas etapas de validação. Entre os pontos mais importantes está descobrir como ele se comporta diante de outras doenças neurológicas que podem produzir sintomas semelhantes aos da ELA.

Também será necessário avaliar o desempenho em populações maiores e diferentes centros de pesquisa. Isso ajudará a determinar se a assinatura molecular mantém sua precisão em condições mais próximas da prática médica cotidiana.

Ainda assim, a análise de mais de 750 casos de ELA nas diferentes etapas do estudo fornece uma base relevante para continuar investigando a possibilidade de uma triagem sanguínea.

A perspectiva é particularmente interessante porque uma análise do plasma poderia, no futuro, complementar a avaliação clínica e oferecer aos profissionais de saúde informações moleculares adicionais sobre o estado do paciente.

Por enquanto, as dez proteínas não representam um diagnóstico pronto. Elas representam uma pista importante de que a ELA pode deixar no sangue uma assinatura molecular complexa e detectável.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica e editora de saúde do Portal Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação na internet, garantindo que o conteúdo seja sempre baseado em rigor técnico, empatia e evidências científicas de qualidade. Ver perfil no LinkedIn