Glicólise: como as células transformam glicose em energia para sobreviver

Esquema 3D da célula mostrando o citosol, local onde ocorre a etapa da glicólise (Getty images)

A glicose é um dos principais combustíveis utilizados pelas células para produzir energia. Antes que esse açúcar possa alimentar outras etapas do metabolismo, porém, ele passa por uma sequência de reações químicas que começa no citoplasma e tem importância fundamental para a sobrevivência celular: a glicólise.

Esse processo permite que as células obtenham energia rapidamente, inclusive em situações nas quais a disponibilidade de oxigênio é limitada. Além disso, seus produtos participam de outras vias metabólicas, conectando a utilização da glicose à produção de energia, à síntese de moléculas e à manutenção das funções celulares.

O que é glicólise e onde ela acontece?

A glicólise é uma via metabólica que consiste na quebra de uma molécula de glicose, composta por seis átomos de carbono, em duas moléculas de piruvato, cada uma com três carbonos.

Esse processo ocorre no citosol, a parte fluida do citoplasma celular. Diferentemente da respiração celular aeróbica, a glicólise não depende diretamente do oxigênio para acontecer.

A via é formada por dez reações químicas consecutivas, catalisadas por enzimas específicas. Durante essas etapas, parte da energia armazenada na glicose é transferida para moléculas utilizadas pela célula.

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O resultado é a produção de ATP, a principal moeda energética celular, e de NADH, uma molécula que transporta elétrons e participa de outras reações metabólicas.

Embora seja uma etapa relativamente curta, a glicólise é indispensável para diversos organismos e tecidos, incluindo células musculares e hemácias humanas.

Como a glicólise transforma glicose em energia?

A glicólise pode ser dividida em duas fases principais: investimento energético e geração de energia. Na primeira etapa, a célula utiliza ATP para modificar a glicose e preparar sua molécula para a quebra. Depois de algumas reações, o composto original é dividido em duas moléculas menores, que seguem por etapas semelhantes até a formação do piruvato.

Na segunda fase, essas moléculas passam por reações que produzem ATP e NADH. Ao final, o rendimento energético líquido corresponde à diferença entre o ATP produzido e o ATP consumido no início.

Para cada molécula de glicose, o balanço da glicólise é:

  • 2 moléculas de piruvato;
  • 2 moléculas de ATP líquidos;
  • 2 moléculas de NADH.

Portanto, embora a via produza quatro moléculas de ATP em determinadas etapas, duas são consumidas durante o processo. O saldo final é de apenas duas moléculas de ATP por glicose.

Esse rendimento pode parecer pequeno quando comparado ao da respiração celular aeróbica completa. Entretanto, a velocidade da glicólise e sua capacidade de funcionar sem utilização direta de oxigênio tornam essa via especialmente importante em determinadas condições.

Quais são as principais enzimas da glicólise?

Resumo ilustrado do processo de glicólise, com as fases de investimento e rendimento de energia

As reações da glicólise dependem de enzimas que controlam a transformação dos compostos intermediários. Três delas merecem destaque por participarem de etapas importantes da regulação metabólica.

A hexoquinase catalisa a primeira reação, na qual a glicose recebe um grupo fosfato e se transforma em glicose-6-fosfato. Essa modificação ajuda a manter a molécula dentro da célula.

A fosfofrutoquinase-1 (PFK-1) catalisa uma etapa regulatória fundamental. Sua atividade responde ao estado energético celular, permitindo ajustar o fluxo da glicólise às necessidades de ATP.

Já a piruvato-quinase participa da etapa final da via, contribuindo para a formação de piruvato e ATP.

A regulação dessas enzimas impede que a célula consuma glicose indiscriminadamente. Dessa forma, a atividade glicolítica pode aumentar quando a demanda energética cresce e diminuir quando as necessidades são menores.

Qual é a relação entre glicólise e oxigênio?

Uma característica importante da glicólise é que ela não utiliza oxigênio diretamente. Isso significa que suas reações podem continuar mesmo quando a disponibilidade desse gás é reduzida, desde que existam glicose, enzimas e condições adequadas para manter o metabolismo.

Na presença de oxigênio e com o funcionamento adequado das mitocôndrias, o piruvato pode ser convertido em acetil-CoA e alimentar o ciclo de Krebs. Os elétrons transportados pelo NADH também podem contribuir para a produção de ATP na cadeia respiratória.

Quando a capacidade de utilizar o piruvato pela respiração mitocondrial é limitada, ele pode ser convertido em lactato. Essa reação regenera NAD+, molécula necessária para que a glicólise continue.

Por isso, a formação de lactato não significa necessariamente falta completa de oxigênio. Ela também ocorre em tecidos com elevada demanda energética, como os músculos durante exercícios intensos.

O que pesquisas recentes revelam sobre a glicólise?

Além de fornecer energia, a glicólise participa de processos que influenciam o crescimento, a sobrevivência e a adaptação das células. Uma pesquisa publicada em 29 de julho de 2026, na revista científica Nature Cell Biology, investigou uma função adicional da enzima glicolítica PGAM1.

O estudo, liderado por Yi Zhang e colaboradores, identificou que essa enzima também atua na regulação da autofagia, processo pelo qual as células degradam e reciclam componentes próprios.

Os pesquisadores demonstraram, em sistemas experimentais de leveduras e células de mamíferos, que a PGAM1 pode funcionar como uma plataforma molecular para recrutar componentes necessários ao início da formação dos autofagossomos, estruturas envolvidas na reciclagem celular. Essa atividade regulatória pode ocorrer independentemente de sua função catalítica na glicólise.

A equipe também observou que a expressão elevada de PGAM1 pode favorecer tanto a atividade glicolítica quanto a autofagia em células tumorais, contribuindo para o crescimento dos tumores estudados.

O trabalho amplia a compreensão sobre a relação entre metabolismo energético e controle de qualidade celular. Contudo, seus resultados não significam que a glicólise cause câncer isoladamente, nem estabelecem por si só um tratamento clínico.

Por que a glicólise é importante para o organismo?

A glicólise é essencial porque oferece uma maneira rápida de obter energia e fornece intermediários para diferentes processos metabólicos. Sua importância varia conforme o tipo celular e as condições fisiológicas.

Nas hemácias humanas, por exemplo, a glicólise é a principal fonte de ATP, pois essas células maduras não possuem mitocôndrias. Já no músculo esquelético, a via pode acelerar durante atividades intensas para atender à demanda energética.

Além disso, alterações no metabolismo da glicose são investigadas em doenças metabólicas e no câncer. Compreender como a glicólise é regulada ajuda a explicar como as células ajustam sua produção de energia às necessidades do organismo.

A glicólise, portanto, não representa apenas a quebra da glicose. Ela é uma via central do metabolismo, conectando a produção de energia à adaptação celular e a mecanismos essenciais para a manutenção da vida.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com sólida experiência em pesquisa acadêmica de ponta, é coautor de um estudo internacional sobre neuroproteção publicado no renomado Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Como editor e fundador do Portal Fala Ciência, sua missão é combater a desinformação, traduzindo descobertas complexas em conhecimento jornalístico acessível, transparente e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes