Terremotos na Lua? Novo mapa revela atividade tectônica recente

Terremotos lunares podem impactar futuras missões espaciais (Imagem: Getty Images via Canva)
Terremotos lunares podem impactar futuras missões espaciais (Imagem: Getty Images via Canva)

Durante décadas, a Lua foi vista como um corpo celeste praticamente inerte, marcado apenas por impactos antigos e vulcanismo extinto. No entanto, novas análises geológicas estão mudando essa visão. Um estudo recente publicado na revista The Planetary Science Journal indica que a Lua ainda passa por deformações tectônicas recentes, o que sugere a ocorrência de terremotos lunares em tempos geologicamente próximos.

Os pesquisadores criaram o primeiro mapa global das pequenas cristas dos mares lunares, estruturas conhecidas como Small Mare Ridges (SMRs). Essas formações aparecem nas grandes planícies escuras da Lua, os chamados mares lunares, e são resultado de compressões na crosta, semelhantes a falhas geológicas na Terra. Após o mapeamento, os cientistas identificaram padrões importantes:

  • As cristas são geologicamente jovens;
  • Estão distribuídas por amplas regiões da superfície lunar;
  • Possuem origem tectônica, e não apenas impacto de meteoros;
  • Podem estar associadas a abalos sísmicos recentes.

Uma Lua que ainda se contrai

Diferentemente da Terra, a Lua não possui placas tectônicas móveis. Mesmo assim, ela sofre tensões internas. À medida que seu interior esfria ao longo de bilhões de anos, o satélite passa por um processo lento de contração global. Esse encolhimento gera compressões na crosta, formando escarpas e cristas, como se a superfície estivesse “se enrugando”.

Uma formação elevada no nordeste do Mare Imbrium foi registrada pela câmera do satélite Lunar Reconnaissance Orbiter, da NASA (Imagem: NASA/GSFC/Universidade Estadual do Arizona)
Uma formação elevada no nordeste do Mare Imbrium foi registrada pela câmera do Reconnaissance Orbiter, da NASA (Imagem: NASA/GSFC/Universidade Estadual do Arizona)

Essas estruturas funcionam como marcas físicas desse processo. Quando a crosta se comprime, um bloco de terreno pode ser empurrado sobre outro, criando degraus geológicos visíveis por satélites.

A Lua é mais instável do que parece e isso muda tudo para futuras missões

Análises anteriores já haviam associado escarpas lunares a registros de sismos detectados durante as missões Apollo. Agora, como as SMRs apresentam um mecanismo de formação semelhante, cresce a hipótese de que elas também estejam ligadas a fontes ativas de terremotos. Isso indica que certas regiões da Lua, especialmente nos mares lunares, podem não ser tão estáveis quanto se imaginava.

Do ponto de vista científico e tecnológico, essa descoberta tem impacto direto nos planos de exploração humana. Programas como o Artemis, da NASA, pretendem estabelecer uma presença prolongada na superfície lunar, o que torna essencial conhecer áreas com potencial sísmico para escolher locais seguros de pouso, planejar bases lunares mais estáveis, reduzir riscos estruturais e projetar habitats capazes de suportar vibrações ao longo do tempo.

Desse jeito, a Lua não é apenas um fóssil do passado do Sistema Solar. Ela ainda está em transformação, e esses pequenos terremotos podem ser a evidência de que, mesmo após bilhões de anos de evolução, o satélite natural da Terra continua geologicamente ativo e dinâmico.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes