Você pode não perceber, mas uma forma silenciosa de poluição química está literalmente caindo do céu. Trata-se de uma chamada “chuva química invisível”, composta por um ácido extremamente persistente que se forma na atmosfera e retorna à superfície por meio da precipitação e da deposição ambiental. O fenômeno foi descrito em um estudo recente publicado na revista Geophysical Research Letters e levanta preocupações sobre um novo tipo de contaminação global.
Em vez de vir diretamente de fábricas ou rios, esse poluente nasce no ar. Ele é resultado da decomposição de gases industriais usados como substitutos dos antigos CFCs, substâncias que foram banidas por destruírem a camada de ozônio. Embora esses novos compostos tenham ajudado a reduzir danos ao ozônio, eles acabaram gerando outro problema ambiental de longo prazo.
Logo, o principal destaque do estudo é o crescimento acelerado do ácido trifluoroacético (TFA), uma substância classificada como parte do grupo dos PFAS, conhecidos como “químicos eternos”, por praticamente não se degradarem no ambiente. Em resumo, os dados indicam que:
- A poluição se forma na atmosfera e retorna com a chuva;
- O TFA se acumula em solos, rios, lagos e oceanos;
- Mais de 300 mil toneladas já foram depositadas desde 2000;
- O composto é altamente persistente e de difícil remoção.
Da proteção ao ozônio à contaminação química global
Os gases que originam o TFA são amplamente usados em ar-condicionado, sistemas de refrigeração e anestésicos. Ao reagirem com componentes da atmosfera, eles se transformam nesse ácido, que pode permanecer por anos antes de atingir a superfície terrestre. Consequentemente, a poluição não fica restrita a áreas urbanas ou industriais, espalhando-se por regiões remotas do planeta.
Um dos achados mais relevantes é que até áreas como o Ártico, longe de centros emissores, apresentam concentrações de TFA compatíveis com esse mecanismo atmosférico. Isso mostra que a contaminação é global, difusa e transfronteiriça, caracterizando um problema ambiental de escala planetária.
Risco invisível, impacto cumulativo
Embora as concentrações atuais não sejam consideradas imediatamente perigosas para humanos, o TFA já foi detectado em amostras biológicas, como sangue e urina. Além disso, estudos toxicológicos indicam efeitos nocivos sobre organismos aquáticos e possíveis impactos reprodutivos.
O maior risco, porém, está no acúmulo progressivo. Como o TFA não se degrada facilmente, ele se soma ano após ano nos ecossistemas. Dessa forma, mesmo que emissões sejam reduzidas no futuro, o estoque ambiental do composto continuará crescendo por décadas.Portanto, a chamada chuva química representa um novo desafio ambiental: uma poluição invisível, persistente e praticamente irreversível. Um problema que não se vê, mas que já está se infiltrando silenciosamente nos ciclos naturais do planeta.

