O salto invisível do metano que acelerou o aquecimento global após 2020

Metano dispara após 2020 e revela nova ameaça climática global (Imagem: Yukiki114 via Canva)
Metano dispara após 2020 e revela nova ameaça climática global (Imagem: Yukiki114 via Canva)

Durante décadas, o aumento do metano atmosférico foi atribuído principalmente à expansão do uso de combustíveis fósseis e da agropecuária. No entanto, a explosão registrada após 2020 revelou um cenário bem mais complexo e inesperado. O que parecia ser apenas mais um efeito da atividade humana, na verdade, envolveu uma mudança profunda na própria capacidade da atmosfera de se limpar.

De forma resumida, dois processos atuaram em conjunto: a atmosfera passou a destruir menos metano e, ao mesmo tempo, o planeta produziu mais desse gás em ambientes naturais alagados. Como resultado, o metano permaneceu por mais tempo no ar, acumulando-se em níveis recordes e intensificando o efeito estufa. Os dados globais indicaram três fatores centrais para esse salto:

  • redução dos radicais hidroxila (OH), responsáveis por eliminar o metano;
  • aumento da umidade em regiões tropicais;
  • expansão de áreas alagadas naturais e agrícolas.

A atmosfera perdeu seu poder de “limpeza”

Os radicais hidroxila atuam como agentes químicos essenciais para o equilíbrio da atmosfera, pois são responsáveis por neutralizar grande parte do metano presente no ar. Ao reagirem com esse gás, eles reduzem seu tempo de permanência e evitam seu acúmulo prolongado. No entanto, a partir de 2020, observou-se uma queda relevante na presença desses compostos, enfraquecendo o principal processo natural de remoção do metano.

Essa alteração está ligada a mudanças no padrão de poluentes atmosféricos, intensificadas durante os períodos de redução de atividades humanas. De forma inesperada, a diminuição de certos poluentes acabou interferindo na química do ar e limitando a eficiência do sistema que regula a concentração de metano.

Um planeta mais úmido produz mais metano

Ao mesmo tempo, o clima entrou em uma fase marcada por chuvas acima da média, impulsionadas por eventos prolongados de La Niña. Esse excesso de umidade expandiu zonas úmidas, pântanos, lagos, rios e áreas de cultivo de arroz, ambientes ideais para microrganismos produtores de metano.

Nessas condições, a atividade microbiana se intensifica e libera grandes volumes do gás, especialmente em regiões tropicais da África e do Sudeste Asiático. Até mesmo áreas do Ártico passaram a emitir mais metano com o aumento das temperaturas e o descongelamento de solos alagados.

O metano é o segundo gás de efeito estufa mais relevante para o aquecimento global e tem um potencial de aquecimento dezenas de vezes maior que o do CO₂ no curto prazo. Assim, mesmo pequenas variações na sua concentração geram impactos climáticos rápidos.

O aspecto mais crítico é que grande parte desse aumento veio de fontes naturais e sistemas gerenciados, como arrozais e reservatórios, que ainda são pouco representados nos modelos climáticos globais. Isso significa que o planeta pode estar subestimando sua própria capacidade de gerar metano em um mundo mais quente e úmido.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua na educação científica e como divulgador, com o compromisso de traduzir descobertas complexas, das microbactérias aos grandes ecossistemas, em conhecimento acessível para todos.Ver perfil no LinkedIn