A natureza está perdendo sua capacidade de reagir às mudanças climáticas, revela estudo

A natureza está ficando menos capaz de se adaptar ao clima extremo (Imagem: Getty Images via Canva)
A natureza está ficando menos capaz de se adaptar ao clima extremo (Imagem: Getty Images via Canva)

A natureza funciona como um sistema dinâmico, no qual espécies entram e saem de ecossistemas continuamente, mantendo o equilíbrio e a diversidade. Esse processo, conhecido como renovação de espécies, é essencial para a resiliência dos ecossistemas frente a mudanças ambientais. No entanto, um novo estudo publicado na Nature Communications indica que esse mecanismo fundamental está perdendo velocidade justamente no momento em que o planeta enfrenta as maiores transformações climáticas da história moderna.

A expectativa científica era clara: com o avanço do aquecimento global, a reorganização das comunidades biológicas deveria se intensificar. Porém, ao analisar dados de biodiversidade de ecossistemas marinhos, terrestres e de água doce ao longo de mais de um século, os pesquisadores observaram exatamente o oposto: a rotatividade de espécies está diminuindo. Nos períodos iniciais da análise mais recente, o padrão começou a se destacar:

  • Menor substituição de espécies locais;
  • Redução na chegada de novos organismos;
  • Comunidades mais “estagnadas” biologicamente.

Esse padrão se repetiu em ambientes muito distintos, desde florestas e áreas urbanas até o fundo dos oceanos.

Quando a natureza muda por dentro, não por fora

Um dos achados mais relevantes do estudo é que os ecossistemas não respondem apenas às pressões externas, como temperatura ou poluição. Eles também operam segundo dinâmicas internas complexas, onde as espécies competem, cooperam e se substituem continuamente.

Esse funcionamento foi descrito como um sistema de “múltiplos atratores”, no qual a biodiversidade se reorganiza de forma espontânea, mesmo sem mudanças ambientais aparentes. Em condições saudáveis, isso garante movimento constante, adaptação e diversidade. O problema é que esse motor interno depende de um fator crítico: a riqueza regional de espécies.

Um sinal silencioso de colapso ecológico

À medida que as atividades humanas degradam habitats, fragmentam ecossistemas e eliminam populações inteiras, o “estoque” de espécies disponíveis tende a diminuir, reduzindo o número de organismos capazes de colonizar novos espaços e, consequentemente, desacelerando a renovação biológica. Em outras palavras, a natureza não está estável, mas sim empobrecida, o que pode desencadear efeitos em cascata, como a menor capacidade de adaptação às mudanças climáticas, a perda de serviços ecossistêmicos essenciais, o aumento da vulnerabilidade a pragas e doenças e até o risco de colapsos ecológicos irreversíveis

Dessa forma, a ausência de mudanças visíveis na biodiversidade local não deve ser interpretada como sinal de equilíbrio, mas como um possível indicativo de que os mecanismos internos que sustentam a vida estão falhando. O estudo reforça uma mensagem central para a ciência e a saúde ambiental: proteger a biodiversidade não significa apenas conservar espécies isoladas, mas preservar o próprio funcionamento do planeta, já que, quando o motor da natureza começa a desacelerar, todo o sistema passa a operar em uma zona de risco.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua na educação científica e como divulgador, com o compromisso de traduzir descobertas complexas, das microbactérias aos grandes ecossistemas, em conhecimento acessível para todos.Ver perfil no LinkedIn