Florestas estão ficando mais rápidas, mais frágeis e menos capazes de salvar o planeta

Florestas crescem mais rápido, mas estão perdendo diversidade e força (Imagem: Pexels via Canva)
Florestas crescem mais rápido, mas estão perdendo diversidade e força (Imagem: Pexels via Canva)

À primeira vista, pode parecer uma boa notícia: as florestas do mundo estão crescendo mais rápido. No entanto, por trás desse aparente avanço, esconde-se um fenômeno preocupante. Ecossistemas florestais estão se tornando mais simples, homogêneos e vulneráveis, com perda progressiva de espécies essenciais para a estabilidade ambiental.

Uma análise global publicada na revista científica Nature Plants, baseada em dados de mais de 31 mil espécies de árvores, mostra que as florestas estão sendo dominadas por árvores de crescimento acelerado. Essas espécies, embora eficientes em colonizar áreas degradadas, não conseguem substituir o papel ecológico das árvores de crescimento lento, que funcionam como a verdadeira espinha dorsal dos ecossistemas. Alguns pontos centrais ajudam a entender a gravidade do cenário:

  • Redução da biodiversidade florestal;
  • Maior presença de espécies exóticas e naturalizadas;
  • Menor capacidade de armazenamento de carbono;
  • Aumento da vulnerabilidade a secas, pragas e eventos extremos.

Quando crescer rápido não significa ser resiliente

As chamadas árvores “velocistas” possuem folhas mais leves e madeira menos densa, o que permite crescimento acelerado. Contudo, essa vantagem vem acompanhada de um custo ecológico: elas são mais sensíveis a estresses climáticos e têm vida útil mais curta. Como resultado, as florestas passam a perder estabilidade a longo prazo.

Por outro lado, árvores de crescimento lento apresentam madeira densa, folhas espessas e grande longevidade. São justamente essas espécies que garantem resiliência climática, proteção do solo e manutenção dos ciclos da água. Além disso, elas são fundamentais para sustentar cadeias ecológicas complexas, especialmente em regiões tropicais.

A expansão silenciosa das espécies exóticas

Outro fator crítico é a disseminação de espécies arbóreas não nativas. Essas árvores se adaptam facilmente a ambientes degradados, mas tendem a competir com espécies locais por luz, água e nutrientes. Com isso, aceleram o processo de homogeneização florestal, reduzindo a diversidade funcional dos ecossistemas.

Embora pareçam eficientes, essas espécies raramente desempenham os mesmos papéis ecológicos das nativas, o que compromete a saúde ambiental a longo prazo.

As florestas tropicais e subtropicais concentram a maior parte das espécies de crescimento lento e distribuição restrita. Justamente por isso, são também as mais vulneráveis. A destruição desses habitats pode levar à extinção definitiva de árvores que não existem em nenhum outro lugar do planeta.

Além disso, mudanças climáticas, desmatamento, silvicultura intensiva e comércio global de espécies estão acelerando esse processo, impulsionado diretamente pela atividade humana.

A gestão florestal precisa mudar urgentemente

Modelos ecológicos indicam que, sem intervenção, as florestas do futuro serão mais produtivas no curto prazo, porém menos capazes de cumprir suas funções climáticas. A solução passa por estratégias de conservação que priorizem a proteção de espécies raras e nativas, a restauração de florestas com alta diversidade funcional, a redução da dependência de monoculturas e o planejamento ecológico de longo prazo. Desse jeito, florestas saudáveis não são apenas rápidas: são diversas, estáveis e complexas, e preservar essa complexidade é essencial para garantir o equilíbrio climático do planeta.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua na educação científica e como divulgador, com o compromisso de traduzir descobertas complexas, das microbactérias aos grandes ecossistemas, em conhecimento acessível para todos.Ver perfil no LinkedIn