Plantas-mãe ensinam sementes a sobreviver usando sinais hormonais invisíveis

Sementes herdam informações do clima por meio de hormônios (Imagem: Getty Images via Canva)
Sementes herdam informações do clima por meio de hormônios (Imagem: Getty Images via Canva)

As sementes não são apenas estruturas passivas esperando o momento certo para brotar. Um novo estudo mostra que elas recebem informações diretas da planta-mãe, capazes de influenciar quando e se irão germinar. Essa comunicação ocorre por meio de um hormônio vegetal chamado ácido abscísico (ABA), que funciona como um mensageiro químico entre gerações.

A pesquisa, publicada na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) por Xiaochao Chen e colaboradores, revela que as plantas-mãe conseguem transmitir sinais ambientais recentes para suas sementes em desenvolvimento, permitindo uma forma rápida de adaptação ao clima, mesmo sem alterações genéticas. Desde os estágios iniciais do desenvolvimento das sementes, a planta-mãe passa a transmitir sinais fundamentais, como:

  • Temperatura do ambiente;
  • Disponibilidade de nutrientes;
  • Condições favoráveis ou desfavoráveis à germinação.

Esses sinais determinam se a semente entrará em dormência, um estado fisiológico que impede a germinação até que o ambiente seja adequado.

O hormônio que ensina a semente a esperar

O principal protagonista desse processo é o ABA, um hormônio conhecido por inibir o crescimento vegetal. Quando a planta-mãe enfrenta temperaturas mais baixas, os níveis de ABA aumentam em tecidos maternos específicos e são transferidos precocemente para a semente. Como resultado, a semente entra em dormência profunda, evitando germinar em condições desfavoráveis.

Por outro lado, em ambientes mais quentes e estáveis, o aumento do ABA ocorre de forma gradual, reduzindo sua influência sobre a dormência. Nesse cenário, a semente permanece mais propensa à germinação rápida.

Esse mecanismo demonstra que a dormência não é apenas uma característica genética, mas também um processo regulado dinamicamente por sinais hormonais intergeracionais.

Comunicação celular revela detalhes invisíveis

Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores utilizaram tecnologias avançadas de análise em célula única, capazes de mapear a presença do hormônio dentro de tecidos específicos da planta. Isso permitiu observar, com alto nível de precisão, o transporte do ABA da planta-mãe até a semente e a resposta individual de cada célula da semente ao sinal hormonal.

Essa abordagem revelou que tecidos não maternos quase não alteram seus níveis de ABA, reforçando que a informação climática é transmitida principalmente pela planta-mãe.

Implicações para agricultura e mudanças climáticas

Do ponto de vista prático, essa descoberta tem enorme impacto para a agricultura moderna. Entender como a dormência é regulada pode ajudar a resolver problemas relacionados à germinabilidade, permitindo o desenvolvimento de sementes mais adaptadas ao ambiente local.

Além disso, o estudo mostra que as plantas possuem uma forma rápida de resiliência climática, já que conseguem ajustar suas futuras gerações com base nas condições recentes, sem depender apenas da evolução genética. Trata-se de um novo nível de adaptação biológica, mediado por hormônios e não apenas por genes.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua na educação científica e como divulgador, com o compromisso de traduzir descobertas complexas, das microbactérias aos grandes ecossistemas, em conhecimento acessível para todos.Ver perfil no LinkedIn