James Webb detecta galáxia anã quase sem metais no universo distante

James Webb revela galáxia quase intacta desde o Big Bang (Imagem: Getty Images via Canva)
James Webb revela galáxia quase intacta desde o Big Bang (Imagem: Getty Images via Canva)

O Telescópio Espacial James Webb (JWST) acaba de revelar um dos objetos mais intrigantes já observados: uma galáxia anã extremamente pobre em metais, localizada a bilhões de anos-luz da Terra. Batizada de CAPERS-39810, essa galáxia funciona como uma verdadeira cápsula do tempo, preservando características químicas muito semelhantes às do universo primordial.

Diferente das galáxias modernas, ricas em elementos como oxigênio, ferro e carbono, a CAPERS-39810 possui uma composição quase intocada desde sua formação. Isso a transforma em um laboratório natural para investigar como surgiram as primeiras estrelas e galáxias após o Big Bang. De forma geral, galáxias desse tipo são importantes porque permitem estudar:

  • Formação estelar em ambientes primitivos;
  • Processos de enriquecimento químico;
  • Condições físicas do universo jovem;
  • Papel das primeiras estrelas na reionização cósmica.

Retrato de um sistema quase intocado desde o Big Bang

A CAPERS-39810 está situada em um alto redshift, o que significa que sua luz levou mais de 11 bilhões de anos para chegar até nós, correspondendo ao chamado meio-dia cósmico, uma fase em que o universo passava por intensa formação de estrelas. Apesar disso, a galáxia apresenta uma metalicidade extremamente baixa, em torno de -1,96 dex, o que indica uma escassez drástica de elementos pesados e sugere que ela é formada quase exclusivamente por hidrogênio e hélio, os primeiros elementos criados após o Big Bang

CAPERS-39810 mostra como era o universo primitivo (Imagem: arXiv (2026). DOI: 10.48550/arxiv.2601.17498)
CAPERS-39810 mostra como era o universo primitivo (Imagem: arXiv (2026). DOI: 10.48550/arxiv.2601.17498)

Além disso, os dados revelam que sua massa estelar é de aproximadamente 100 milhões de sóis, a idade da população estelar é de cerca de 270 milhões de anos e a taxa de formação estelar é relativamente modesta, em torno de 0,26 massas solares por ano, características que reforçam seu perfil de galáxia jovem e quimicamente primitiva.

O que essa descoberta muda na cosmologia?

A identificação dessa galáxia reforça a ideia de que sistemas quimicamente primitivos podem ser muito mais comuns do que se imaginava, mas, até recentemente, a tecnologia disponível não permitia detectá-los com facilidade em regiões intermediárias do universo. Com o JWST, essa limitação começa a cair, e a missão demonstra que galáxias pobres em metais não são exclusivas do universo muito jovem, podendo existir também em fases posteriores da história cósmica.

Isso tem implicações profundas para áreas como a evolução das galáxias, a origem dos elementos químicos, os modelos de formação estelar e as simulações do universo primitivo. Em síntese, a CAPERS-39810 não é apenas uma nova galáxia descoberta, mas uma evidência direta de como o cosmos começou a se estruturar, oferecendo pistas concretas sobre as primeiras etapas da complexidade cósmica.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua como divulgador científico. Apaixonado por ciência e educação, busca tornar o conhecimento acessível de forma clara e responsável.