Fungo amazônico produz corante natural seguro com ação antioxidante e antibacteriana

Fungo da Amazônia gera corante natural seguro para cosméticos (Imagem: Juliana Barone Teixeira/FCFAr-Unesp)
Fungo da Amazônia gera corante natural seguro para cosméticos (Imagem: Juliana Barone Teixeira/FCFAr-Unesp)

Uma descoberta vinda diretamente da biodiversidade amazônica pode representar um divisor de águas para a indústria de cosméticos. Um fungo nativo da região demonstrou capacidade de produzir um corante natural estável, seguro e funcional, abrindo caminho para a substituição de pigmentos sintéticos amplamente usados em produtos de higiene e beleza.

O microrganismo, identificado como Talaromyces amestolkiae, é capaz de gerar tonalidades vibrantes que variam entre amarelo, laranja e vermelho intenso. Em testes laboratoriais, o extrato produzido pelo fungo foi incorporado a diferentes formulações, como cremes faciais, xampus e bastões em gel, sem comprometer textura, cor ou desempenho. Além do aspecto visual, os pesquisadores observaram propriedades biológicas relevantes:

  • Redução superior a 75% de compostos oxidantes em contato com a pele;
  • Alta viabilidade celular, indicando baixa toxicidade;
  • Presença de atividade antioxidante e antibacteriana;
  • Boa estabilidade físico-química nas formulações testadas.

Esses resultados sugerem que o corante não apenas colore, mas também pode contribuir para a proteção celular, um diferencial importante em produtos dermatológicos e cosméticos.

O fim gradual dos corantes sintéticos

Atualmente, diversos países vêm restringindo o uso de corantes artificiais devido à associação com reações alérgicas, irritações cutâneas e potenciais riscos toxicológicos. Nesse contexto, cresce a demanda por alternativas naturais, especialmente aquelas com menor impacto ambiental e maior compatibilidade biológica.

Os chamados corantes microbianos surgem como uma solução promissora. Diferente dos pigmentos vegetais, que dependem de grandes áreas de cultivo, microrganismos podem ser produzidos em laboratório com baixo consumo de recursos e alta reprodutibilidade, tornando o processo mais sustentável e escalável.

Como microrganismos da Amazônia podem impulsionar a indústria do futuro

A pesquisa também reforça um ponto central da biotecnologia moderna: nem todos os microrganismos estão associados a doenças. Muitos deles são fontes valiosas de compostos bioativos, com aplicações em áreas como saúde, indústria, agricultura e meio ambiente.

No caso do Talaromyces amestolkiae, o fungo se desenvolve naturalmente em ambientes quentes e úmidos, características típicas da Amazônia. Em laboratório, essas condições foram reproduzidas para estimular a produção do pigmento em escala controlada.

Atualmente, o maior desafio é a escala de produção. Os pesquisadores já conseguem obter pequenas quantidades do corante, mas o próximo passo é aumentar esse volume para atender demandas industriais. Além dos cosméticos, há estudos em andamento para aplicação do pigmento em tecidos, embalagens e até alimentos, como gelatinas.

Se confirmada sua viabilidade comercial, essa descoberta pode consolidar o Brasil como referência em inovação biotecnológica baseada na biodiversidade, mostrando que a floresta não é apenas um patrimônio ecológico, mas também uma fonte estratégica de soluções para o futuro.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua como divulgador científico. Apaixonado por ciência e educação, busca tornar o conhecimento acessível de forma clara e responsável.