Mesmo em ilhas isoladas, peixes do Pacífico já estão cheios de microplásticos

Até peixes remotos do Pacífico já ingerem microplásticos (Imagem: Photo Images)
Até peixes remotos do Pacífico já ingerem microplásticos (Imagem: Photo Images)

Por muito tempo, imaginou-se que ilhas distantes e mares pouco explorados estariam protegidos da poluição moderna. No entanto, novas evidências científicas mostram que essa percepção não corresponde mais à realidade. Mesmo em regiões remotas do Pacífico, peixes já estão ingerindo microplásticos, revelando que a contaminação por plástico se tornou um fenômeno verdadeiramente global.

A pesquisa, publicada na revista científica PLOS One, analisou centenas de peixes capturados em ilhas do Pacífico e encontrou partículas microscópicas de plástico em cerca de um terço dos indivíduos. O dado chama atenção porque essas áreas estão entre as mais isoladas do planeta, longe de grandes centros industriais. Os pesquisadores observaram três padrões principais:

  • Alta frequência de microplásticos em peixes de recifes e de fundo marinho;
  • Diferenças marcantes entre países, com destaque para Fiji;
  • Relação direta entre hábitos alimentares e risco de ingestão de plástico.

Quando o isolamento deixa de ser proteção

Apesar da distância geográfica, muitas ilhas do Pacífico enfrentam desafios estruturais, como crescimento urbano acelerado e sistemas limitados de gestão de resíduos. Como resultado, resíduos plásticos acabam alcançando rios, praias e, inevitavelmente, o oceano. Além disso, correntes marinhas transportam partículas de plástico por milhares de quilômetros, espalhando a poluição para além de suas fontes de origem.

Em Fiji, por exemplo, quase três em cada quatro peixes analisados apresentaram microplásticos, um índice acima da média observada em outras regiões do mundo. Embora a quantidade de partículas por peixe seja pequena, o problema se torna relevante quando se considera o consumo frequente de pescado pelas populações locais.

Ecologia dos peixes e risco de contaminação

Um dos achados mais importantes do estudo foi a relação entre ecologia e exposição ao plástico. Peixes que vivem próximos aos recifes ou que se alimentam no fundo do mar tendem a ingerir mais microplásticos. Isso ocorre porque essas partículas se acumulam nos sedimentos e são confundidas com alimento.

Espécies que caçam por emboscada, consomem invertebrados ou reviram o fundo em busca de comida também apresentaram taxas mais elevadas de contaminação. Em outras palavras, o comportamento alimentar influencia diretamente o risco de ingestão de resíduos sintéticos.

Impactos para a saúde e segurança alimentar

Embora ainda existam lacunas sobre os efeitos diretos dos microplásticos no organismo humano, já se sabe que essas partículas podem atuar como vetores de substâncias tóxicas e microrganismos. Em regiões onde o peixe é a principal fonte de proteína, isso levanta preocupações sobre segurança alimentar, saúde pública e sustentabilidade.

Além disso, a predominância de fibras plásticas sugere que a poluição não vem apenas de lixo visível, mas também de tecidos sintéticos, redes de pesca e microfibras domésticas. Assim, a contaminação se torna difusa, invisível e difícil de controlar.

Os resultados desmontam a ideia de que apenas países industrializados sofrem com a poluição marinha. Mesmo ecossistemas considerados preservados já funcionam como reservatórios de plástico, o que reforça a necessidade de políticas globais que atuem na redução da produção de plástico, e não apenas na reciclagem. Portanto, o estudo evidencia que a crise dos microplásticos não é um problema do futuro, mas uma realidade atual, silenciosa e profundamente integrada à vida nos oceanos.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua como divulgador científico. Apaixonado por ciência e educação, busca tornar o conhecimento acessível de forma clara e responsável.