Tecnologia inovadora pode transformar lixo do carvão em metais estratégicos

Lixo do carvão pode virar fonte de metais estratégicos (Imagem: Peggy Greb, US department of agriculture/ Domínio público)
Lixo do carvão pode virar fonte de metais estratégicos (Imagem: Peggy Greb, US department of agriculture/ Domínio público)

Elementos químicos invisíveis ao olhar humano estão por trás de tecnologias que movem o mundo moderno. Motores de carros elétricos, turbinas eólicas, smartphones e sistemas de defesa dependem de um grupo específico de materiais conhecidos como terras raras. Agora, um novo método científico promete tornar a obtenção desses elementos mais eficiente e a partir de algo antes considerado apenas lixo industrial.

As terras raras correspondem a um conjunto de 17 elementos químicos, incluindo os lantanídeos, além do escândio e do ítrio. Apesar do nome, eles não são propriamente raros na crosta terrestre. O grande desafio está na extração e purificação, processos complexos, caros e com alto impacto ambiental.

A técnica apresentada em um artigo da revista Environmental Science & Technology, desenvolvida por uma equipe da Northeastern University, aponta um caminho alternativo para obter esses elementos: o aproveitamento de resíduos gerados pela extração de carvão. Esses materiais são compostos por fragmentos minerais microscópicos, água e restos de carbono, que geralmente são descartados em grandes quantidades como rejeito industrial. A partir da análise desses resíduos, os pesquisadores observaram benefícios relevantes:

  • Reaproveitamento de resíduos industriais;
  • Redução do impacto ambiental da mineração tradicional;
  • Nova fonte para metais estratégicos;
  • Potencial aplicação em larga escala.

Como o novo processo funciona na prática?

O método desenvolvido é baseado em duas etapas químicas complementares. Primeiro, os rejeitos passam por um tratamento alcalino, no qual são aquecidos e expostos à radiação de micro-ondas. Essa fase altera a estrutura física do material, tornando-o mais poroso e reativo.

Em seguida, ocorre uma digestão ácida, que separa seletivamente as terras raras do restante da matriz mineral. Esse processo facilita a liberação dos elementos químicos que antes estavam presos em estruturas sólidas altamente estáveis.

Além disso, a combinação dessas etapas mostrou-se mais eficiente do que técnicas convencionais, que frequentemente falham ao tentar extrair metais de minerais compactos. A modificação estrutural dos rejeitos aumenta significativamente a taxa de recuperação dos elementos de interesse.

Uma solução promissora, mas ainda em desenvolvimento

Apesar do potencial, o novo método ainda enfrenta desafios importantes. O principal deles é o custo do processo, que pode limitar sua aplicação industrial em larga escala. Além disso, a composição dos rejeitos de carvão varia conforme a região, o que exige ajustes específicos para cada tipo de material.

Outro ponto relevante é que a técnica prioriza apenas as terras raras, deixando de recuperar outros elementos valiosos, como magnésio e alumínio. Mesmo assim, o avanço representa um passo estratégico rumo a uma economia mais sustentável e circular, baseada no reaproveitamento de resíduos.Portanto, a descoberta não apenas amplia as possibilidades de acesso a metais críticos, como também reforça uma tendência global: transformar passivos ambientais em ativos tecnológicos, fundamentais para a transição energética e para o futuro da indústria de alta performance.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes