Mudanças no Ártico aumentam ondas de calor, secas e chuvas sobre neve

Extremos climáticos no Ártico ameaçam fauna, flora e equilíbrio global (Imagem: Alemedia.id via Canva)
Extremos climáticos no Ártico ameaçam fauna, flora e equilíbrio global (Imagem: Alemedia.id via Canva)

O Ártico está passando por uma transformação sem precedentes, entrando em um período de extremos climáticos contínuos. Estudos recentes, publicados na Science Advances, mostram que eventos antes raros, como ondas de calor, secas intensas e chuvas sobre a neve, estão se tornando cada vez mais frequentes e distribuídos por grande parte da região polar.

Nas últimas três décadas, regiões como a Sibéria Central, a costa oeste da Escandinávia e a Groenlândia têm vivido alterações climáticas intensas e inesperadas, ameaçando ecossistemas que permaneceram relativamente estáveis por séculos. Esses eventos extremos, mesmo que de curta duração, podem provocar efeitos imediatos e prolongados sobre a fauna e a flora, comprometendo a capacidade de adaptação das espécies locais. Principais fenômenos e impactos:

  • Chuvas sobre a neve que formam camadas de gelo, dificultando o acesso de herbívoros à alimentação;
  • Ondas de calor e períodos de seca que prejudicam o desenvolvimento da vegetação da tundra;
  • Degelo do permafrost que libera gases de efeito estufa, intensificando o aquecimento global;
  • Diminuição do gelo marinho que interfere nos ciclos ecológicos e nos padrões climáticos da região.

Chuvas sobre neve: um efeito devastador

Um dos problemas mais críticos é a chuva sobre neve, que forma uma camada impermeável sobre o solo. Essa barreira impede que renas, lebres e outros herbívoros acessem líquens e plantas vitais, colocando em risco a sobrevivência e reprodução dessas espécies. Além disso, plantas adaptadas a invernos frios, como Empetrum nigrum, têm sua mortalidade potencialmente acelerada, contribuindo para o fenômeno conhecido como “escurecimento do Ártico”.

Impactos globais e a importância do monitoramento

As mudanças no Ártico têm consequências que vão além da região polar. O degelo do permafrost e a perda de gelo marinho liberam carbono na atmosfera, criando um ciclo de retroalimentação que intensifica o aquecimento global. Assim, os eventos extremos no Ártico podem influenciar padrões climáticos em todo o planeta, afetando espécies, ecossistemas e clima global.

Os cientistas enfatizam a necessidade urgente de ampliar redes de monitoramento em áreas remotas, garantindo dados confiáveis para prever, compreender e mitigar os impactos das mudanças climáticas. Entender essas transformações é crucial para proteger a biodiversidade polar e o equilíbrio climático global.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes