No coração de planetas gigantes como Urano e Netuno, a água assume formas que a ciência terrestre jamais experimenta. Um estado conhecido como água superiônica combina propriedades de sólido e líquido, sendo condutor elétrico, quente e extremamente denso. Pesquisas recentes, publicadas na Nature Communications, conseguiram recriar esse material em laboratório, oferecendo pistas valiosas sobre a formação de campos magnéticos caóticos nesses mundos gelados.
Os experimentos demonstram que a água superiônica não é apenas curiosidade científica; ela pode ser uma das formas de água mais comuns no universo, presente em diversos exoplanetas.
- Estrutura complexa: átomos de oxigênio formam uma rede rígida enquanto os átomos de hidrogênio se movimentam livremente;
- Condutividade elétrica: essa mobilidade torna o gelo capaz de gerar campos magnéticos imprevisíveis;
- Instabilidade magnética: combinações de estruturas cúbicas e hexagonais criam padrões irregulares, explicando os campos magnéticos desordenados de Urano e Netuno.
Como o gelo negro foi criado em laboratório

Para simular condições extremas do interior planetário, os cientistas utilizaram bigornas de diamante, aplicando pressões de até 1,8 milhão de atmosferas, e lasers pulsados, elevando a temperatura para cerca de 2.500 Kelvin. Raios X capturaram a posição dos átomos em frações de segundo, revelando uma rede cristalina complexa, com múltiplas estruturas coexistindo.
Essa técnica permitiu observar, pela primeira vez, o comportamento real da água superiônica, oferecendo evidências concretas de como sua estrutura influencia diretamente os campos magnéticos irregulares detectados por sondas espaciais.
Implicações para a ciência planetária e exoplanetas
Além de explicar os mistérios de Urano e Netuno, a descoberta sugere que água superiônica pode ser comum em exoplanetas, mudando nossa visão sobre a química planetária. Ela reforça a ideia de que a água, vital para a vida na Terra, pode assumir configurações radicalmente diferentes dependendo do ambiente.Essa pesquisa abre caminho para compreender não apenas o interior dos gigantes de gelo, mas também a evolução magnética e a potencial habitabilidade de mundos distantes.

