A imagem clássica dos neandertais como caçadores focados em grandes animais está sendo constantemente revisada pela ciência. Um novo estudo publicado na revista Scientific Reports revela que esses humanos antigos também exploravam tartarugas de água doce, ampliando ainda mais o entendimento sobre sua dieta e comportamento.
A pesquisa analisou vestígios encontrados em uma antiga paisagem lacustre na Alemanha, datada do Último Interglacial, há cerca de 125 mil anos. O diferencial do estudo está na alta resolução dos dados, que permite observar um “recorte” mais preciso do cotidiano desses grupos humanos. Entre os principais achados, destacam-se:
- Evidências de consumo da tartaruga-de-lagoa europeia (Emys orbicularis);
- Presença de marcas de corte nos ossos, indicando processamento humano;
- Exploração simultânea de grandes mamíferos e pequenos animais;
- Possível uso das carapaças para além da alimentação.
Muito além da caça de grandes animais
Durante muito tempo, acreditava-se que os neandertais dependiam principalmente de presas de grande porte, como cervos e até elefantes pré-históricos. No entanto, os novos dados mostram uma dieta muito mais diversificada.
No sítio arqueológico analisado, foram encontrados restos de animais que variam de pequenas tartarugas, com cerca de 1 kg, até enormes mamíferos do Pleistoceno. Essa variedade sugere uma estratégia alimentar flexível, característica importante para a sobrevivência em ambientes dinâmicos.
Além disso, a presença de plantas carbonizadas indica que a alimentação também incluía recursos vegetais, reforçando a complexidade da dieta desses grupos.
Marcas nos ossos revelam comportamento detalhado

Um dos pontos mais relevantes do estudo é a identificação de marcas de corte nos fragmentos de carapaça das tartarugas. Essas marcas foram encontradas principalmente na parte interna dos ossos, o que indica ações específicas, como:
- Remoção de carne e órgãos internos;
- Desarticulação dos membros;
- Limpeza da carapaça.
Esse padrão sugere que os neandertais não apenas consumiam esses animais, mas também realizavam um processamento cuidadoso, semelhante ao observado em presas maiores.
Tartarugas: alimento ou ferramenta?
Curiosamente, o valor nutricional das tartarugas é relativamente baixo quando comparado a grandes mamíferos. Isso levanta uma questão importante: por que coletá-las com frequência?
Uma das hipóteses é que esses animais funcionavam como um recurso complementar, fácil de capturar quando disponível. No entanto, outra possibilidade ganha destaque: o uso das carapaças como recipientes.
A limpeza detalhada observada nos fósseis sugere que essas estruturas poderiam ter sido reutilizadas, talvez para armazenar alimentos ou líquidos. Embora essa interpretação não seja definitiva, ela aponta para um comportamento mais sofisticado do que se imaginava.
Um retrato mais completo dos neandertais
A descoberta amplia significativamente o entendimento sobre a ecologia e o comportamento dos neandertais. Em vez de especialistas em grandes caçadas, eles se mostram generalistas adaptáveis, capazes de explorar diferentes recursos disponíveis no ambiente.
Além disso, o estudo reforça a importância de análises em escala local e temporal mais precisa, que permitem reconstruir com maior fidelidade o modo de vida dessas populações.
Ao revelar o uso de pequenos animais como as tartarugas, a pesquisa contribui para um retrato mais complexo e humano dos neandertais, mostrando que sua sobrevivência dependia não apenas da força, mas também de estratégia, adaptação e conhecimento do ambiente.

