Microbiota alterada pode aumentar risco de câncer de esôfago, diz estudo

Estudo associa disbiose ao câncer de esôfago. (Foto: Getty Images via Canva)
Estudo associa disbiose ao câncer de esôfago. (Foto: Getty Images via Canva)

Um novo estudo científico reforça uma ideia que vem ganhando força na medicina moderna: o risco de câncer de esôfago pode estar relacionado ao equilíbrio das bactérias que vivem no nosso corpo.

A pesquisa foi publicada na revista científica Critical Reviews in Oncology/Hematology (2026) e conduzida por Amirhossein Rajabnia e colaboradores. O trabalho analisou como mudanças na microbiota podem influenciar o desenvolvimento desse tipo de câncer.

A principal conclusão é que o desequilíbrio dessas bactérias, conhecido como disbiose, pode contribuir para alterações no organismo que favorecem a doença.

O que é a microbiota e qual a sua importância

Dentro do corpo humano vivem trilhões de microrganismos, principalmente bactérias. Esse conjunto é chamado de microbiota e está presente na boca, intestino e até no esôfago.

Apesar de muitas pessoas associarem bactérias apenas a doenças, a maioria delas é benéfica. Elas ajudam em funções importantes, como:

  • digestão dos alimentos
  • produção de vitaminas
  • proteção contra microrganismos nocivos
  • regulação do sistema imunológico

O problema começa quando esse equilíbrio é perdido, criando um cenário de disbiose, que pode favorecer processos inflamatórios.

O que muda no corpo em casos de câncer de esôfago

O estudo analisou diferentes perfis de microbiota em pessoas com câncer de esôfago e encontrou padrões consistentes de alteração.

Entre os principais achados estão:

  • aumento de bactérias como Fusobacterium
  • redução de bactérias consideradas protetoras, como Streptococcus
  • presença de microrganismos associados a mudanças metabólicas no ambiente digestivo

Essas alterações foram observadas tanto no esôfago quanto na boca e no intestino, mostrando que o sistema funciona de forma integrada.

Como a microbiota alterada pode influenciar o câncer

Microbiota alterada pode aumentar risco de câncer de esôfago. (Foto: Getty Images via Canva)
Microbiota alterada pode aumentar risco de câncer de esôfago. (Foto: Getty Images via Canva)

Segundo os pesquisadores, o desequilíbrio das bactérias pode contribuir para o desenvolvimento do câncer de esôfago por diferentes caminhos.

Os principais mecanismos incluem:

  • inflamação crônica na mucosa do esôfago
  • produção de substâncias que podem danificar células
  • enfraquecimento da barreira de proteção do tecido
  • alteração no ambiente químico do sistema digestivo

Com o tempo, esses fatores podem favorecer mudanças celulares que aumentam o risco da doença.

A conexão entre boca, intestino e esôfago

Um ponto importante destacado pelo estudo é que a microbiota não age de forma isolada.

A boca, por exemplo, pode funcionar como uma fonte de microrganismos que chegam ao esôfago durante a deglutição. Já o intestino também influencia o equilíbrio geral do sistema digestivo por meio de processos metabólicos e imunológicos.

Essa interação ajuda a explicar por que alterações em diferentes regiões do corpo podem estar relacionadas ao câncer de esôfago.

Possíveis aplicações na medicina

O estudo publicado em Critical Reviews in Oncology/Hematology (2026) também aponta que a microbiota pode ter utilidade no futuro da medicina.

Entre as possíveis aplicações estão:

  • uso como marcador precoce de risco
  • auxílio no diagnóstico mais preciso
  • desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas

No entanto, os pesquisadores destacam que ainda são necessários mais estudos para confirmar essas aplicações na prática clínica.

O que essa descoberta muda na compreensão da doença

Apesar de fatores como tabagismo e consumo de álcool ainda serem considerados os principais riscos associados, o estudo indica que o câncer de esôfago pode envolver mecanismos mais complexos do que se imaginava.

Nesse contexto, o equilíbrio das bactérias do organismo passa a ser visto como um componente adicional importante para entender o desenvolvimento da doença.

Em resumo, o estudo indica que manter a microbiota equilibrada pode ser uma peça relevante na prevenção e no entendimento do câncer de esôfago, ampliando a visão sobre como o organismo humano funciona em conjunto com seus microrganismos.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn