Microambientes criados por células podem antecipar o câncer no pulmão 

Pesquisa mostra como ocorre fase inicial do câncer no pulmão. (Foto: Science Photo Library via Canva)
Pesquisa mostra como ocorre fase inicial do câncer no pulmão. (Foto: Science Photo Library via Canva)

O câncer não surge de forma repentina. Cada vez mais, a ciência revela que existe uma fase inicial silenciosa em que o próprio tecido começa a se reorganizar para favorecer o crescimento tumoral. Um novo estudo publicado na revista Nature em 2026, liderado por Erik C. Cardoso, traz novas evidências sobre esse processo precoce no desenvolvimento do câncer de pulmão.

A pesquisa mostra que células geneticamente alteradas são capazes de modificar o ambiente ao seu redor antes mesmo da formação do tumor, criando um cenário biológico mais favorável à progressão da doença.

A fase silenciosa que antecede o tumor

Os cientistas investigaram como células do pulmão com mutação ativa, especialmente no gene KRAS G12D, começam a se comportar logo após a alteração genética. Em vez de permanecerem inativas, essas células rapidamente adotam um estado semelhante ao de células regenerativas.

Esse comportamento desencadeia uma série de mudanças no tecido, funcionando como um verdadeiro centro de comunicação celular.

Entre os principais efeitos observados estão:

• Reorganização do tecido pulmonar
• Ativação de sinais inflamatórios
• Aumento da plasticidade celular
• Comunicação intensa entre células epiteliais e estromais

Esses eventos criam o que os pesquisadores chamam de microambiente permissivo ao tumor, ou seja, um espaço biológico que facilita o surgimento e a progressão do câncer.

O papel das células na construção do ambiente tumoral

Células tumorais e inflamação no câncer de pulmão. (Foto: Getty Images via Canva)
Células tumorais e inflamação no câncer de pulmão. (Foto: Getty Images via Canva)

Um dos achados mais importantes do estudo foi a identificação de um circuito complexo entre diferentes tipos celulares.

As células epiteliais alteradas liberam uma substância chamada anfirregulina, que ativa receptores específicos em fibroblastos vizinhos. Essa interação desencadeia um processo semelhante à cicatrização, promovendo um estado de fibrose inicial.

Em seguida, esses fibroblastos reprogramados influenciam outras células do sistema imunológico, especialmente os macrófagos alveolares, intensificando sinais inflamatórios e reforçando a remodelação do tecido.

Esse ciclo cria uma rede de comunicação que se retroalimenta continuamente.

Um circuito biológico que favorece a progressão do câncer

O estudo descreve esse processo como um circuito epitélio-estroma-imunidade, no qual diferentes células trabalham de forma coordenada, ainda que involuntária, para transformar o ambiente pulmonar.

Esse sistema envolve:

• Células epiteliais mutantes
• Fibroblastos ativados
• Células imunológicas inflamatórias

Juntas, essas interações tornam o tecido mais propenso ao desenvolvimento tumoral antes mesmo do surgimento do câncer visível.

Possíveis caminhos para novas estratégias terapêuticas

Um dos pontos mais relevantes da pesquisa é que a interrupção desse circuito pode impedir o início do tumor. Ao bloquear a via de sinalização entre anfirregulina e EGFR, os cientistas conseguiram evitar a formação do microambiente permissivo em modelos experimentais.

Isso sugere que atuar nas fases iniciais da doença pode ser uma estratégia promissora para prevenção e tratamento precoce.

Além disso, o estudo também identificou que esse mecanismo aparece em tecidos humanos iniciais de câncer de pulmão, indicando que não se trata apenas de um fenômeno experimental.

Um novo olhar sobre o início do câncer

Os resultados mostram uma mudança importante na forma como o câncer é compreendido. Em vez de ser visto apenas como uma proliferação descontrolada de células, ele passa a ser entendido como um processo que envolve reorganização ativa do tecido e comunicação entre diferentes tipos celulares desde os estágios iniciais.

Isso abre espaço para novas pesquisas voltadas não apenas a tratar o tumor, mas a impedir que ele encontre condições ideais para se desenvolver.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn